As ideias que moldaram meu olhar sobre a política
A política sempre me despertou uma inquietação que
ultrapassa a disputa eleitoral e a ocupação de espaços de poder. Mais do que
escolher representantes ou disputar posições, ela revela a permanente tentativa
humana de organizar a vida em sociedade, definir prioridades e construir
caminhos diante de problemas que raramente possuem respostas simples. Existe
uma dimensão mais profunda nesse campo de atuação: compreender as razões que
movem as pessoas, as instituições e as escolhas que determinam os rumos de uma
comunidade.
Essa inquietação acompanhou toda a minha trajetória. A
convivência com diferentes momentos, lideranças e ambientes políticos revelou
que a experiência prática, embora indispensável, não oferece sozinha todas as
respostas. A vivência aproxima da realidade, evidencia os desafios concretos e
demonstra que, entre uma intenção legítima e sua transformação em resultado,
existe um caminho marcado por circunstâncias, escolhas e capacidade de
articulação.
O estudo, por sua vez, permite interpretar
acontecimentos, compreender contextos e enxergar além das urgências do
cotidiano. A política vivida sem reflexão corre o risco de transformar-se
apenas em reação aos fatos; a reflexão distante da realidade pode perder
contato com os problemas concretos que pretende enfrentar. Foi justamente nesse
encontro entre experiência e conhecimento que procurei construir minha formação
intelectual.
Nunca busquei autores apenas para confirmar convicções
previamente estabelecidas. Pelo contrário, aproximei-me de diferentes correntes
de pensamento porque sempre acreditei que a inteligência política amadurece
quando é desafiada. As leituras mais importantes foram justamente aquelas
capazes de provocar dúvidas, ampliar horizontes e demonstrar que problemas
complexos dificilmente encontram respostas simples. Uma consciência política
não se forma pela repetição de discursos nem pela adesão automática a determinadas
correntes, mas pela disposição permanente de dialogar com diferentes
interpretações da realidade.
Ao longo dessa formação, procurei conhecer diferentes
tradições de pensamento que, embora muitas vezes apresentadas como antagônicas,
contribuíram para ampliar minha compreensão sobre a política, o Estado, a
democracia e a sociedade. Nunca enxerguei essas correntes como compartimentos
fechados, mas como diferentes formas de interpretar uma realidade complexa, da
qual nenhuma perspectiva consegue se apropriar integralmente.
No campo das ideias liberais, John Stuart Mill
tornou-se uma referência importante, assim como as publicações da então
Fundação Milton Campos — atualmente Fundação Francisco Dornelles. Essas
leituras ampliaram meu olhar sobre liberdade individual, democracia
representativa, pluralismo político, livre iniciativa, responsabilidade fiscal,
segurança jurídica e os limites da atuação estatal. Mais do que conceitos
abstratos, esses valores passaram a representar uma forma de compreender a
sociedade, reconhecendo a liberdade como condição essencial para que cada
pessoa possa desenvolver seus talentos, empreender, inovar e participar
ativamente da vida coletiva.
Com o tempo, essa reflexão revelou que a liberdade não
se resume à ausência de impedimentos. Ela depende da existência de
oportunidades concretas para que cada indivíduo possa construir seu próprio
projeto de vida. Uma sociedade verdadeiramente livre precisa estimular a
iniciativa, o mérito e a criatividade, sem ignorar os obstáculos que ainda
limitam a capacidade de muitos cidadãos de realizar plenamente suas
potencialidades.
Por outro lado, a experiência no movimento estudantil
e, posteriormente, no Partido Popular Socialista aproximou-me de outra tradição
de pensamento: o humanismo democrático. Mais do que uma filiação partidária,
encontrei ali uma reflexão comprometida com a defesa da cidadania, da dignidade
da pessoa humana, da democracia pluralista e da justiça social. Foi nesse
ambiente que amadureceram reflexões sobre redução das desigualdades,
desenvolvimento responsável e o papel das políticas públicas como instrumentos
capazes de ampliar oportunidades.
Embora possuam origens distintas, essas tradições
revelaram, para mim, importantes pontos de convergência. A liberdade perde
parte de seu significado quando parcela expressiva da população não encontra
condições reais para exercê-la; da mesma forma, políticas sociais permanentes
dependem de uma economia dinâmica, de responsabilidade na gestão dos recursos
públicos e de instituições capazes de assegurar estabilidade, segurança
jurídica e desenvolvimento.
Foi justamente essa convivência entre diferentes
tradições de pensamento que consolidou uma convicção que permanece presente: os
melhores caminhos raramente surgem dos extremos. Eles costumam nascer da
capacidade de aproximar ideias distintas, reconhecer seus limites e construir
soluções equilibradas para desafios que não admitem simplificações.
Nesse percurso intelectual, autores como Norberto Bobbio, Alexis de Tocqueville, Raymundo Faoro, Amartya Sen e Celso Furtado ampliaram significativamente minha compreensão sobre democracia, cidadania, formação do Estado brasileiro, desenvolvimento, desigualdades e liberdade. Cada um, a seu modo, demonstrou que nenhuma corrente de pensamento possui, isoladamente, todas as respostas para a complexidade da vida pública. A democracia fortalece-se justamente pela convivência entre diferentes ideias e pela capacidade de construir consensos sem eliminar a pluralidade.
Minha formação também foi enriquecida pelos clássicos
da estratégia. Em Nicolau Maquiavel, especialmente em O Príncipe,
encontrei uma análise realista sobre o exercício do poder, fundada nas
circunstâncias históricas, nas relações de força e nos desafios enfrentados por
aqueles que exercem a liderança. Sua obra demonstra que governar exige mais do
que boas intenções: exige conhecimento da realidade, prudência, capacidade de
adaptação e compreensão do tempo histórico.
Em Sun Tzu, autor de A Arte da Guerra,
encontrei princípios que ultrapassam o universo militar e dialogam diretamente
com a vida pública. A distinção entre estratégia e tática tornou-se uma
referência permanente para compreender que nenhuma transformação consistente
nasce do improviso. Grandes resultados dependem de planejamento, preparação,
conhecimento do ambiente, formação de equipes e clareza quanto aos objetivos
que se pretende alcançar.
A formação jurídica acrescentou outra dimensão
essencial a esse percurso. O estudo do Direito aprofundou minha compreensão
sobre o Estado Democrático de Direito, os direitos fundamentais, a separação
dos Poderes e a segurança jurídica como pilares indispensáveis para uma
sociedade livre, organizada e comprometida com a preservação das instituições
democráticas.
No campo do Direito Administrativo e do Direito
Público, autores como Maria Sylvia Zanella Di Pietro, Celso Antônio Bandeira de
Mello e José dos Santos Carvalho Filho contribuíram decisivamente para ampliar
minha percepção sobre a organização da Administração Pública, os princípios que
orientam a atuação estatal, os limites do poder administrativo e a
responsabilidade daqueles que exercem funções públicas. Seus ensinamentos
demonstram que o Estado não representa apenas uma estrutura formal de
autoridade, mas um instrumento voltado à realização do interesse público,
permanentemente submetido aos princípios da legalidade, da impessoalidade, da
moralidade, da publicidade e da eficiência.
Essa compreensão ganhou contornos ainda mais concretos quando passou a dialogar com a prática. Em 2010, tive a oportunidade de atuar como assistente no Gabinete da Secretaria de Estado da Assistência Social de Santa Catarina, experiência que proporcionou contato direto com a formulação e a implementação de políticas públicas voltadas à proteção social, ao fortalecimento da cidadania e à promoção da inclusão. Acompanhando de perto a construção e a execução dessas políticas, percebi que governar exige muito mais do que boas intenções: requer capacidade de transformar princípios em ações concretas, administrar recursos limitados, estabelecer prioridades e compreender as múltiplas realidades que convivem em uma mesma sociedade.
Dois anos depois, em 2012, assumi a Gerência do Procon de Florianópolis, onde pude vivenciar, diariamente, os desafios da defesa do
consumidor, da mediação de conflitos e da efetivação dos direitos assegurados
pelo ordenamento jurídico. Foi nesse percurso que o Direito deixou de ser
apenas objeto de estudo para tornar-se instrumento concreto de transformação
social.
O contato cotidiano com consumidores, fornecedores,
órgãos públicos e instituições responsáveis pela proteção da cidadania reforçou
a percepção de que os direitos somente alcançam sua plenitude quando conseguem
produzir efeitos concretos na vida das pessoas. Mais do que interpretar normas,
tornou-se necessário compreender conflitos, construir soluções, estimular a
conciliação e fortalecer mecanismos capazes de equilibrar relações naturalmente
desiguais.
Nesse ambiente, o estudo do Direito do Consumidor
revelou-se uma verdadeira escola de cidadania. As contribuições de Cláudia Lima
Marques, Bruno Miragem, Rizzatto Nunes e Antônio Herman Benjamin ampliaram
minha compreensão sobre a vulnerabilidade do consumidor, a boa-fé objetiva, a
proteção da confiança, o equilíbrio das relações de consumo e a centralidade da
dignidade da pessoa humana como fundamento das políticas públicas voltadas à
defesa dos cidadãos. A convivência diária com essas questões demonstrou que a
proteção do consumidor ultrapassa a solução de conflitos individuais:
representa uma política pública voltada ao fortalecimento da cidadania, à
redução das desigualdades nas relações econômicas e à concretização dos
direitos fundamentais.
Essa vivência também permitiu compreender que o Estado
exerce um papel indispensável na harmonização das relações sociais, não como um
fim em si mesmo, mas como instrumento voltado à realização do interesse
público. A boa administração, o respeito às garantias individuais, a segurança
jurídica e a efetividade dos direitos caminham lado a lado e constituem
pressupostos para a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas.
A experiência revelou, enfim, que uma democracia não
se sustenta apenas pela realização periódica de eleições. Ela depende da
preservação cotidiana dos direitos fundamentais, da confiança nas instituições,
da observância das regras democráticas e da existência de cidadãos conscientes
de seus direitos e deveres. Cidadania não é apenas um conceito jurídico; é uma
prática permanente de participação, responsabilidade e compromisso com a
construção da vida coletiva.
A combinação entre espiritualidade, liderança
comunitária, participação no movimento estudantil, atuação partidária, formação
jurídica, experiência na gestão pública e contato permanente com diferentes
correntes de pensamento foi formando, ao longo dos anos, uma maneira própria de
compreender a vida pública. Uma visão que procura conciliar liberdade,
desenvolvimento econômico, responsabilidade fiscal, justiça social,
fortalecimento da cidadania e respeito aos fundamentos do Estado Democrático de
Direito.
Mais do que escolher entre uma tradição ou outra,
procurei compreender aquilo que cada uma oferece de melhor para enfrentar os
desafios concretos da sociedade. Essa busca pelo equilíbrio não representa
ausência de convicções; revela, antes, a compreensão de que a realidade
política é sempre mais complexa do que qualquer fórmula pronta e exige
permanente disposição para aprender, revisar posições e construir consensos
possíveis.
Entretanto, nenhuma convicção permanece intacta quando encontra a realidade. Os livros ajudam a compreender princípios; a vida pública revela seus limites, suas possibilidades e, sobretudo, a necessidade permanente de conciliar ideias com circunstâncias concretas. Foi justamente esse encontro entre formação intelectual e experiência política que passou a moldar minha compreensão sobre liderança, partidos, escolhas e processos de decisão. As ideias que orientaram meu olhar precisaram dialogar, diariamente, com pessoas, instituições, interesses legítimos e desafios que jamais se apresentam exatamente como descrevem os livros.
Foi nesse ambiente, marcado pela
convivência com diferentes lideranças, projetos, vitórias, divergências e
transformações políticas, que a teoria encontrou sua maior prova: a realidade.
É a partir desse encontro entre convicções e experiência que se inicia a
próxima etapa desta caminhada, acompanhando os personagens, os acontecimentos e
os ciclos que ajudaram a moldar uma geração da política catarinense.
SC │ Alisson Micoski
Advogado, articulador e analista político
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