terça-feira, 14 de julho de 2026

A quadra da história política que vivi: entre mudanças, rupturas e novos caminhos II

 As ideias que moldaram meu olhar sobre a política

  A política sempre me despertou uma inquietação que ultrapassa a disputa eleitoral e a ocupação de espaços de poder. Mais do que escolher representantes ou disputar posições, ela revela a permanente tentativa humana de organizar a vida em sociedade, definir prioridades e construir caminhos diante de problemas que raramente possuem respostas simples. Existe uma dimensão mais profunda nesse campo de atuação: compreender as razões que movem as pessoas, as instituições e as escolhas que determinam os rumos de uma comunidade.

  Essa inquietação acompanhou toda a minha trajetória. A convivência com diferentes momentos, lideranças e ambientes políticos revelou que a experiência prática, embora indispensável, não oferece sozinha todas as respostas. A vivência aproxima da realidade, evidencia os desafios concretos e demonstra que, entre uma intenção legítima e sua transformação em resultado, existe um caminho marcado por circunstâncias, escolhas e capacidade de articulação.

  O estudo, por sua vez, permite interpretar acontecimentos, compreender contextos e enxergar além das urgências do cotidiano. A política vivida sem reflexão corre o risco de transformar-se apenas em reação aos fatos; a reflexão distante da realidade pode perder contato com os problemas concretos que pretende enfrentar. Foi justamente nesse encontro entre experiência e conhecimento que procurei construir minha formação intelectual.

  Nunca busquei autores apenas para confirmar convicções previamente estabelecidas. Pelo contrário, aproximei-me de diferentes correntes de pensamento porque sempre acreditei que a inteligência política amadurece quando é desafiada. As leituras mais importantes foram justamente aquelas capazes de provocar dúvidas, ampliar horizontes e demonstrar que problemas complexos dificilmente encontram respostas simples. Uma consciência política não se forma pela repetição de discursos nem pela adesão automática a determinadas correntes, mas pela disposição permanente de dialogar com diferentes interpretações da realidade.

  Ao longo dessa formação, procurei conhecer diferentes tradições de pensamento que, embora muitas vezes apresentadas como antagônicas, contribuíram para ampliar minha compreensão sobre a política, o Estado, a democracia e a sociedade. Nunca enxerguei essas correntes como compartimentos fechados, mas como diferentes formas de interpretar uma realidade complexa, da qual nenhuma perspectiva consegue se apropriar integralmente.

  No campo das ideias liberais, John Stuart Mill tornou-se uma referência importante, assim como as publicações da então Fundação Milton Campos — atualmente Fundação Francisco Dornelles. Essas leituras ampliaram meu olhar sobre liberdade individual, democracia representativa, pluralismo político, livre iniciativa, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e os limites da atuação estatal. Mais do que conceitos abstratos, esses valores passaram a representar uma forma de compreender a sociedade, reconhecendo a liberdade como condição essencial para que cada pessoa possa desenvolver seus talentos, empreender, inovar e participar ativamente da vida coletiva.

  Com o tempo, essa reflexão revelou que a liberdade não se resume à ausência de impedimentos. Ela depende da existência de oportunidades concretas para que cada indivíduo possa construir seu próprio projeto de vida. Uma sociedade verdadeiramente livre precisa estimular a iniciativa, o mérito e a criatividade, sem ignorar os obstáculos que ainda limitam a capacidade de muitos cidadãos de realizar plenamente suas potencialidades.

  Por outro lado, a experiência no movimento estudantil e, posteriormente, no Partido Popular Socialista aproximou-me de outra tradição de pensamento: o humanismo democrático. Mais do que uma filiação partidária, encontrei ali uma reflexão comprometida com a defesa da cidadania, da dignidade da pessoa humana, da democracia pluralista e da justiça social. Foi nesse ambiente que amadureceram reflexões sobre redução das desigualdades, desenvolvimento responsável e o papel das políticas públicas como instrumentos capazes de ampliar oportunidades.

  Embora possuam origens distintas, essas tradições revelaram, para mim, importantes pontos de convergência. A liberdade perde parte de seu significado quando parcela expressiva da população não encontra condições reais para exercê-la; da mesma forma, políticas sociais permanentes dependem de uma economia dinâmica, de responsabilidade na gestão dos recursos públicos e de instituições capazes de assegurar estabilidade, segurança jurídica e desenvolvimento.

  Foi justamente essa convivência entre diferentes tradições de pensamento que consolidou uma convicção que permanece presente: os melhores caminhos raramente surgem dos extremos. Eles costumam nascer da capacidade de aproximar ideias distintas, reconhecer seus limites e construir soluções equilibradas para desafios que não admitem simplificações.

 Nesse percurso intelectual, autores como Norberto Bobbio, Alexis de Tocqueville, Raymundo Faoro, Amartya Sen e Celso Furtado ampliaram significativamente minha compreensão sobre democracia, cidadania, formação do Estado brasileiro, desenvolvimento, desigualdades e liberdade. Cada um, a seu modo, demonstrou que nenhuma corrente de pensamento possui, isoladamente, todas as respostas para a complexidade da vida pública. A democracia fortalece-se justamente pela convivência entre diferentes ideias e pela capacidade de construir consensos sem eliminar a pluralidade.

  Minha formação também foi enriquecida pelos clássicos da estratégia. Em Nicolau Maquiavel, especialmente em O Príncipe, encontrei uma análise realista sobre o exercício do poder, fundada nas circunstâncias históricas, nas relações de força e nos desafios enfrentados por aqueles que exercem a liderança. Sua obra demonstra que governar exige mais do que boas intenções: exige conhecimento da realidade, prudência, capacidade de adaptação e compreensão do tempo histórico.

  Em Sun Tzu, autor de A Arte da Guerra, encontrei princípios que ultrapassam o universo militar e dialogam diretamente com a vida pública. A distinção entre estratégia e tática tornou-se uma referência permanente para compreender que nenhuma transformação consistente nasce do improviso. Grandes resultados dependem de planejamento, preparação, conhecimento do ambiente, formação de equipes e clareza quanto aos objetivos que se pretende alcançar.

  A formação jurídica acrescentou outra dimensão essencial a esse percurso. O estudo do Direito aprofundou minha compreensão sobre o Estado Democrático de Direito, os direitos fundamentais, a separação dos Poderes e a segurança jurídica como pilares indispensáveis para uma sociedade livre, organizada e comprometida com a preservação das instituições democráticas.

  No campo do Direito Administrativo e do Direito Público, autores como Maria Sylvia Zanella Di Pietro, Celso Antônio Bandeira de Mello e José dos Santos Carvalho Filho contribuíram decisivamente para ampliar minha percepção sobre a organização da Administração Pública, os princípios que orientam a atuação estatal, os limites do poder administrativo e a responsabilidade daqueles que exercem funções públicas. Seus ensinamentos demonstram que o Estado não representa apenas uma estrutura formal de autoridade, mas um instrumento voltado à realização do interesse público, permanentemente submetido aos princípios da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência.

  Essa compreensão ganhou contornos ainda mais concretos quando passou a dialogar com a prática. Em 2010, tive a oportunidade de atuar como assistente no Gabinete da Secretaria de Estado da Assistência Social de Santa Catarina, experiência que proporcionou contato direto com a formulação e a implementação de políticas públicas voltadas à proteção social, ao fortalecimento da cidadania e à promoção da inclusão. Acompanhando de perto a construção e a execução dessas políticas, percebi que governar exige muito mais do que boas intenções: requer capacidade de transformar princípios em ações concretas, administrar recursos limitados, estabelecer prioridades e compreender as múltiplas realidades que convivem em uma mesma sociedade.

  Dois anos depois, em 2012, assumi a Gerência do Procon de Florianópolis, onde pude vivenciar, diariamente, os desafios da defesa do consumidor, da mediação de conflitos e da efetivação dos direitos assegurados pelo ordenamento jurídico. Foi nesse percurso que o Direito deixou de ser apenas objeto de estudo para tornar-se instrumento concreto de transformação social.

  O contato cotidiano com consumidores, fornecedores, órgãos públicos e instituições responsáveis pela proteção da cidadania reforçou a percepção de que os direitos somente alcançam sua plenitude quando conseguem produzir efeitos concretos na vida das pessoas. Mais do que interpretar normas, tornou-se necessário compreender conflitos, construir soluções, estimular a conciliação e fortalecer mecanismos capazes de equilibrar relações naturalmente desiguais.

  Nesse ambiente, o estudo do Direito do Consumidor revelou-se uma verdadeira escola de cidadania. As contribuições de Cláudia Lima Marques, Bruno Miragem, Rizzatto Nunes e Antônio Herman Benjamin ampliaram minha compreensão sobre a vulnerabilidade do consumidor, a boa-fé objetiva, a proteção da confiança, o equilíbrio das relações de consumo e a centralidade da dignidade da pessoa humana como fundamento das políticas públicas voltadas à defesa dos cidadãos. A convivência diária com essas questões demonstrou que a proteção do consumidor ultrapassa a solução de conflitos individuais: representa uma política pública voltada ao fortalecimento da cidadania, à redução das desigualdades nas relações econômicas e à concretização dos direitos fundamentais.

  Essa vivência também permitiu compreender que o Estado exerce um papel indispensável na harmonização das relações sociais, não como um fim em si mesmo, mas como instrumento voltado à realização do interesse público. A boa administração, o respeito às garantias individuais, a segurança jurídica e a efetividade dos direitos caminham lado a lado e constituem pressupostos para a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas.

  A experiência revelou, enfim, que uma democracia não se sustenta apenas pela realização periódica de eleições. Ela depende da preservação cotidiana dos direitos fundamentais, da confiança nas instituições, da observância das regras democráticas e da existência de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres. Cidadania não é apenas um conceito jurídico; é uma prática permanente de participação, responsabilidade e compromisso com a construção da vida coletiva.

  A combinação entre espiritualidade, liderança comunitária, participação no movimento estudantil, atuação partidária, formação jurídica, experiência na gestão pública e contato permanente com diferentes correntes de pensamento foi formando, ao longo dos anos, uma maneira própria de compreender a vida pública. Uma visão que procura conciliar liberdade, desenvolvimento econômico, responsabilidade fiscal, justiça social, fortalecimento da cidadania e respeito aos fundamentos do Estado Democrático de Direito.

  Mais do que escolher entre uma tradição ou outra, procurei compreender aquilo que cada uma oferece de melhor para enfrentar os desafios concretos da sociedade. Essa busca pelo equilíbrio não representa ausência de convicções; revela, antes, a compreensão de que a realidade política é sempre mais complexa do que qualquer fórmula pronta e exige permanente disposição para aprender, revisar posições e construir consensos possíveis.

  Entretanto, nenhuma convicção permanece intacta quando encontra a realidade. Os livros ajudam a compreender princípios; a vida pública revela seus limites, suas possibilidades e, sobretudo, a necessidade permanente de conciliar ideias com circunstâncias concretas. Foi justamente esse encontro entre formação intelectual e experiência política que passou a moldar minha compreensão sobre liderança, partidos, escolhas e processos de decisão. As ideias que orientaram meu olhar precisaram dialogar, diariamente, com pessoas, instituições, interesses legítimos e desafios que jamais se apresentam exatamente como descrevem os livros. 

   Foi nesse ambiente, marcado pela convivência com diferentes lideranças, projetos, vitórias, divergências e transformações políticas, que a teoria encontrou sua maior prova: a realidade. É a partir desse encontro entre convicções e experiência que se inicia a próxima etapa desta caminhada, acompanhando os personagens, os acontecimentos e os ciclos que ajudaram a moldar uma geração da política catarinense.

SC │ Alisson Micoski

Advogado, articulador e analista político

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