A esquerda democrática no ciclo da
descentralização estadual
A
reorganização política que acompanhou a chegada do novo governo estadual também
alcançou o PPS, legenda de porte intermediário que, naquele início dos anos
2000, atravessava um período de afirmação e consolidação de sua identidade.
Herdeiro da tradição do antigo Partido Comunista Brasileiro, o chamado
“Partidão”, o partido carregava uma história marcada pela defesa da democracia,
pela participação em grandes debates nacionais e pela atuação de lideranças que
contribuíram para a construção de importantes agendas públicas brasileiras.
Naquele novo
cenário político, a etapa vivida pela sigla procurava conciliar essa trajetória
histórica com uma visão de mundo atualizada, fundada no socialismo democrático,
no humanismo, na defesa das instituições e na ampliação da participação cidadã.
Mais do que romper com suas origens, o desafio era reinterpretar seu papel
diante das transformações sociais e políticas daquele período, aproximando a
legenda de novas lideranças, movimentos e demandas que emergiam em uma
sociedade cada vez mais complexa.
Essa relação
entre memória e renovação fazia parte da própria identidade que o PPS buscava
construir. Entre as lideranças nacionais vinculadas à história do partido,
Sérgio Arouca representava uma das expressões mais marcantes, especialmente
pela atuação na Reforma Sanitária brasileira e na defesa da saúde como direito
fundamental, movimento decisivo para a construção do Sistema Único de Saúde
(SUS). Essa herança vinculava o partido a grandes debates nacionais, enquanto a
legenda buscava ampliar sua capacidade de diálogo nos Estados.
Em Santa
Catarina, esse desafio estava relacionado à necessidade de transformar uma
identidade política consolidada em uma presença mais abrangente no território
estadual. O PPS tinha em Sérgio Grando sua principal referência política,
especialmente pela experiência acumulada à frente da Prefeitura de
Florianópolis, mas ainda buscava fortalecer sua inserção além dos espaços onde
possuía maior reconhecimento. Foi nesse ambiente que passou a dialogar com
Fernando Coruja, liderança política da Serra Catarinense que havia construído
uma trajetória própria no cenário estadual.
Médico,
advogado e deputado federal reeleito em 2002 pelo PDT, Coruja havia iniciado
sua caminhada política em Lages, onde exerceu mandato de vereador e prefeito,
consolidando-se como uma liderança regional com forte presença no debate
público. Sua aproximação com o PPS não decorreu de uma decisão isolada, mas de
uma convergência construída ao longo daquele período, envolvendo sua trajetória
política, as disputas internas do PDT e a busca por um novo espaço partidário.
Durante a
eleição de 2002, PPS, PV e PDT haviam estabelecido entendimentos em torno de
uma candidatura ao Governo do Estado liderada por Sérgio Grando. As definições
finais das alianças, contudo, alteraram o cenário inicialmente projetado. Ao
optar pela composição com o então governador Esperidião Amin, o PDT
aproximou-se de um campo político que, especialmente em Lages, encontrava-se em
posição adversária ao grupo liderado por Coruja.
A decisão
aprofundou uma divergência que já vinha sendo percebida dentro da legenda
trabalhista. Na Serra Catarinense, a política possuía características próprias,
marcadas por disputas históricas entre diferentes grupos locais, e a
aproximação do PDT com a candidatura de Amin, que reunia também o PFL,
representava um caminho distinto daquele defendido pelo grupo político de
Coruja. Diante dessa nova configuração, ele passou a apoiar Luiz Henrique da
Silveira ainda durante a campanha eleitoral, em um movimento que refletia tanto
a realidade regional quanto a necessidade de redefinir sua trajetória política.
A filiação ao PPS, concretizada em 2003, ocorreu justamente quando a legenda buscava ampliar sua inserção estadual. Ao lado de Coruja, chegaram lideranças vinculadas ao antigo campo trabalhista, entre prefeitos, vereadores, ex-deputados estaduais e outras referências políticas, entre elas o ex-senador Nelson Wedekin. Mais do que uma simples troca partidária, aquela aproximação reunia diferentes trajetórias políticas e ampliava a capacidade do PPS de dialogar com regiões onde ainda possuía presença limitada.
Esse processo
também alcançou o Sul do Estado, onde o partido passou a contar com Altair
Guidi, uma das lideranças políticas mais tradicionais daquela região. Com uma
trajetória construída ao longo de décadas, Guidi havia sido prefeito de
Criciúma, deputado estadual por diferentes legislaturas e deputado estadual
constituinte, participando da elaboração da Constituição Catarinense de 1989.
Sua história política estava ligada ao antigo campo partidário que passou por
Arena, PDS e PPB, até romper com esse grupo e aproximar-se de uma legenda que
buscava ampliar seu espaço a partir de uma nova identidade política.
A chegada
dessas lideranças ocorria em paralelo à participação do PPS na administração
estadual que se iniciava. Integrante da aliança vencedora, o partido passou a
ocupar espaços dentro da estrutura governamental, mas o desafio político ia
além dos cargos conquistados: tratava-se de transformar aquele momento
favorável em uma organização partidária mais presente nos municípios e capaz de
aproximar sua tradição histórica das novas demandas da sociedade catarinense.
Na área da
saúde, essa participação ganhou especial relevância com a indicação de Fernando
Coruja para a Secretaria de Estado da Saúde. Médico de formação, com trajetória
também construída no campo jurídico, e experiência acumulada como vereador,
prefeito de Lages e deputado federal, Coruja reunia conhecimento técnico da
área e capacidade de articulação política, características que marcariam sua
atuação à frente da pasta.
Ao seu lado,
uma jovem liderança da Serra Catarinense passava a ocupar uma função
estratégica na estrutura da Secretaria. Carmen Zanotto, enfermeira e
ex-secretária municipal de Saúde de Lages, havia sido eleita vereadora em 2000,
mas naquele período sua atuação estava fortemente vinculada ao perfil técnico
construído na área da saúde, resultado da experiência administrativa acumulada
no município e do contato direto com a realidade da gestão pública local.
No início da
nova administração, Carmen deixou o mandato legislativo municipal para assumir
a Diretoria Geral da Secretaria de Estado da Saúde, função que, na estrutura
administrativa daquele período, correspondia ao papel de secretaria adjunta.
Sua atuação ao lado de Coruja combinava a experiência técnica construída na
gestão municipal com o conhecimento dos desafios enfrentados diariamente pelos
municípios na execução das políticas públicas de saúde.
Enquanto
Coruja exercia a condução política da pasta, Carmen contribuía com sua vivência
administrativa e com a compreensão concreta das dificuldades encontradas pelas
estruturas municipais. A composição entre ambos revelava uma característica
daquele momento: a aproximação entre lideranças políticas, gestores públicos e
representantes regionais com diferentes experiências, reunindo capacidade de
articulação, conhecimento técnico e contato direto com a realidade das
comunidades.
A
participação do PPS na estrutura estadual também se expressou em outras áreas,
com Sérgio Grando assumindo a presidência da Fundação do Meio Ambiente (FATMA),
consolidando a presença da legenda em espaços estratégicos da administração.
Mais do que ocupar posições no governo, o partido procurava aproveitar aquele
período para ampliar sua presença política e fortalecer uma identidade baseada
na democracia, na participação social e na valorização do poder local.
Essa
renovação alcançava igualmente a juventude partidária. A Juventude Popular
Socialista participou das articulações internas que acompanharam essa nova fase
do partido, conquistando representação no Diretório Estadual, espaço assumido
por Luciano Formighieri, ex-presidente da União Catarinense dos Estudantes
(UCE), liderança formada no movimento estudantil catarinense, e que posteriormente seria um dos principais líderes sobre a questão do Artigo 170 da Constituição Estadual, que trata sobre bolsas de estudo para o ensino superior catarinense.
A presença de
Luciano naquele espaço simbolizava o encontro entre diferentes gerações
políticas, aproximando lideranças com trajetórias consolidadas e uma juventude
formada nos movimentos estudantil, comunitário e partidário, que começava a
ocupar espaços de decisão. Mais do que uma renovação interna, aquele momento
representava a tentativa de construir uma legenda capaz de unir sua história,
suas referências e novos quadros que surgiam em diferentes regiões de Santa
Catarina.
Foi nesse ambiente de transformação que também assumi novas responsabilidades. Em Porto União, passei a presidir o diretório municipal do PPS, aproximando-me das articulações estaduais e da organização partidária no Planalto Norte. Até então, minha atuação estava concentrada na Juventude Popular Socialista e no movimento estudantil; a partir daquele momento, passei a acompanhar mais diretamente o cotidiano partidário, percebendo como as decisões construídas no âmbito estadual encontravam expressão nos municípios e influenciavam a formação de uma nova geração de lideranças em Santa Catarina.
SC │ Alisson Micoski
Advogado, articulador e analista político
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