quinta-feira, 30 de julho de 2026

A reorganização do centro político catarinense e o desafio de uma nova forma de governar I

A esquerda democrática no ciclo da descentralização estadual

   A reorganização política que acompanhou a chegada do novo governo estadual também alcançou o PPS, legenda de porte intermediário que, naquele início dos anos 2000, atravessava um período de afirmação e consolidação de sua identidade. Herdeiro da tradição do antigo Partido Comunista Brasileiro, o chamado “Partidão”, o partido carregava uma história marcada pela defesa da democracia, pela participação em grandes debates nacionais e pela atuação de lideranças que contribuíram para a construção de importantes agendas públicas brasileiras.

   Naquele novo cenário político, a etapa vivida pela sigla procurava conciliar essa trajetória histórica com uma visão de mundo atualizada, fundada no socialismo democrático, no humanismo, na defesa das instituições e na ampliação da participação cidadã. Mais do que romper com suas origens, o desafio era reinterpretar seu papel diante das transformações sociais e políticas daquele período, aproximando a legenda de novas lideranças, movimentos e demandas que emergiam em uma sociedade cada vez mais complexa.

   Essa relação entre memória e renovação fazia parte da própria identidade que o PPS buscava construir. Entre as lideranças nacionais vinculadas à história do partido, Sérgio Arouca representava uma das expressões mais marcantes, especialmente pela atuação na Reforma Sanitária brasileira e na defesa da saúde como direito fundamental, movimento decisivo para a construção do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa herança vinculava o partido a grandes debates nacionais, enquanto a legenda buscava ampliar sua capacidade de diálogo nos Estados.

   Em Santa Catarina, esse desafio estava relacionado à necessidade de transformar uma identidade política consolidada em uma presença mais abrangente no território estadual. O PPS tinha em Sérgio Grando sua principal referência política, especialmente pela experiência acumulada à frente da Prefeitura de Florianópolis, mas ainda buscava fortalecer sua inserção além dos espaços onde possuía maior reconhecimento. Foi nesse ambiente que passou a dialogar com Fernando Coruja, liderança política da Serra Catarinense que havia construído uma trajetória própria no cenário estadual.

   Médico, advogado e deputado federal reeleito em 2002 pelo PDT, Coruja havia iniciado sua caminhada política em Lages, onde exerceu mandato de vereador e prefeito, consolidando-se como uma liderança regional com forte presença no debate público. Sua aproximação com o PPS não decorreu de uma decisão isolada, mas de uma convergência construída ao longo daquele período, envolvendo sua trajetória política, as disputas internas do PDT e a busca por um novo espaço partidário.

   Durante a eleição de 2002, PPS, PV e PDT haviam estabelecido entendimentos em torno de uma candidatura ao Governo do Estado liderada por Sérgio Grando. As definições finais das alianças, contudo, alteraram o cenário inicialmente projetado. Ao optar pela composição com o então governador Esperidião Amin, o PDT aproximou-se de um campo político que, especialmente em Lages, encontrava-se em posição adversária ao grupo liderado por Coruja.

   A decisão aprofundou uma divergência que já vinha sendo percebida dentro da legenda trabalhista. Na Serra Catarinense, a política possuía características próprias, marcadas por disputas históricas entre diferentes grupos locais, e a aproximação do PDT com a candidatura de Amin, que reunia também o PFL, representava um caminho distinto daquele defendido pelo grupo político de Coruja. Diante dessa nova configuração, ele passou a apoiar Luiz Henrique da Silveira ainda durante a campanha eleitoral, em um movimento que refletia tanto a realidade regional quanto a necessidade de redefinir sua trajetória política.



   A filiação ao PPS, concretizada em 2003, ocorreu justamente quando a legenda buscava ampliar sua inserção estadual. Ao lado de Coruja, chegaram lideranças vinculadas ao antigo campo trabalhista, entre prefeitos, vereadores, ex-deputados estaduais e outras referências políticas, entre elas o ex-senador Nelson Wedekin. Mais do que uma simples troca partidária, aquela aproximação reunia diferentes trajetórias políticas e ampliava a capacidade do PPS de dialogar com regiões onde ainda possuía presença limitada.

   Esse processo também alcançou o Sul do Estado, onde o partido passou a contar com Altair Guidi, uma das lideranças políticas mais tradicionais daquela região. Com uma trajetória construída ao longo de décadas, Guidi havia sido prefeito de Criciúma, deputado estadual por diferentes legislaturas e deputado estadual constituinte, participando da elaboração da Constituição Catarinense de 1989. Sua história política estava ligada ao antigo campo partidário que passou por Arena, PDS e PPB, até romper com esse grupo e aproximar-se de uma legenda que buscava ampliar seu espaço a partir de uma nova identidade política.

   A chegada dessas lideranças ocorria em paralelo à participação do PPS na administração estadual que se iniciava. Integrante da aliança vencedora, o partido passou a ocupar espaços dentro da estrutura governamental, mas o desafio político ia além dos cargos conquistados: tratava-se de transformar aquele momento favorável em uma organização partidária mais presente nos municípios e capaz de aproximar sua tradição histórica das novas demandas da sociedade catarinense.

   Na área da saúde, essa participação ganhou especial relevância com a indicação de Fernando Coruja para a Secretaria de Estado da Saúde. Médico de formação, com trajetória também construída no campo jurídico, e experiência acumulada como vereador, prefeito de Lages e deputado federal, Coruja reunia conhecimento técnico da área e capacidade de articulação política, características que marcariam sua atuação à frente da pasta.

   Ao seu lado, uma jovem liderança da Serra Catarinense passava a ocupar uma função estratégica na estrutura da Secretaria. Carmen Zanotto, enfermeira e ex-secretária municipal de Saúde de Lages, havia sido eleita vereadora em 2000, mas naquele período sua atuação estava fortemente vinculada ao perfil técnico construído na área da saúde, resultado da experiência administrativa acumulada no município e do contato direto com a realidade da gestão pública local.

   No início da nova administração, Carmen deixou o mandato legislativo municipal para assumir a Diretoria Geral da Secretaria de Estado da Saúde, função que, na estrutura administrativa daquele período, correspondia ao papel de secretaria adjunta. Sua atuação ao lado de Coruja combinava a experiência técnica construída na gestão municipal com o conhecimento dos desafios enfrentados diariamente pelos municípios na execução das políticas públicas de saúde.

   Enquanto Coruja exercia a condução política da pasta, Carmen contribuía com sua vivência administrativa e com a compreensão concreta das dificuldades encontradas pelas estruturas municipais. A composição entre ambos revelava uma característica daquele momento: a aproximação entre lideranças políticas, gestores públicos e representantes regionais com diferentes experiências, reunindo capacidade de articulação, conhecimento técnico e contato direto com a realidade das comunidades.

   A participação do PPS na estrutura estadual também se expressou em outras áreas, com Sérgio Grando assumindo a presidência da Fundação do Meio Ambiente (FATMA), consolidando a presença da legenda em espaços estratégicos da administração. Mais do que ocupar posições no governo, o partido procurava aproveitar aquele período para ampliar sua presença política e fortalecer uma identidade baseada na democracia, na participação social e na valorização do poder local.

   Essa renovação alcançava igualmente a juventude partidária. A Juventude Popular Socialista participou das articulações internas que acompanharam essa nova fase do partido, conquistando representação no Diretório Estadual, espaço assumido por Luciano Formighieri, ex-presidente da União Catarinense dos Estudantes (UCE), liderança formada no movimento estudantil catarinense, e que posteriormente seria um dos principais líderes sobre a questão do Artigo 170 da Constituição Estadual, que trata sobre bolsas de estudo para o ensino superior catarinense.

   A presença de Luciano naquele espaço simbolizava o encontro entre diferentes gerações políticas, aproximando lideranças com trajetórias consolidadas e uma juventude formada nos movimentos estudantil, comunitário e partidário, que começava a ocupar espaços de decisão. Mais do que uma renovação interna, aquele momento representava a tentativa de construir uma legenda capaz de unir sua história, suas referências e novos quadros que surgiam em diferentes regiões de Santa Catarina.

   Foi nesse ambiente de transformação que também assumi novas responsabilidades. Em Porto União, passei a presidir o diretório municipal do PPS, aproximando-me das articulações estaduais e da organização partidária no Planalto Norte. Até então, minha atuação estava concentrada na Juventude Popular Socialista e no movimento estudantil; a partir daquele momento, passei a acompanhar mais diretamente o cotidiano partidário, percebendo como as decisões construídas no âmbito estadual encontravam expressão nos municípios e influenciavam a formação de uma nova geração de lideranças em Santa Catarina.


SC │ Alisson Micoski

Advogado, articulador e analista político

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segunda-feira, 27 de julho de 2026

A reorganização do centro político catarinense e o desafio das antigas forças partidárias diante de 2026 II

Das articulações nacionais à virada histórica de 2002 em Santa Catarina

 

   As reflexões que me aproximaram do PPS logo seriam colocadas à prova. A eleição de 2002 não representou apenas meu primeiro grande processo eleitoral como dirigente partidário; foi também a oportunidade de compreender, na prática, que a política raramente se desenvolve em linhas retas. As alianças construídas naquele momento revelavam um cenário muito mais complexo do que as tradicionais divisões entre direita, centro e esquerda, demonstrando que, em determinadas conjunturas, a capacidade de diálogo e articulação poderia ser tão importante quanto as diferenças ideológicas.

   A candidatura de Ciro Gomes sintetizava esse ambiente. Em Santa Catarina, os apoios à sua campanha presidencial produziam uma configuração pouco usual para os padrões políticos da época. Embora o PPS apresentasse Sérgio Grando, ex-prefeito de Florianópolis, como candidato ao Governo do Estado, Ciro recebia o respaldo de importantes lideranças do então PFL, presidido nacionalmente por Jorge Bornhausen, e do PPB, partido do governador Esperidião Amin, que disputava sua reeleição.

   O cenário era, no mínimo, curioso. Nas eleições municipais de 2000, Ângela Amin (PPB) havia derrotado Sérgio Grando e o sucedido na Prefeitura de Florianópolis. Dois anos depois, entretanto, as divergências estaduais cediam espaço a um projeto presidencial comum. A política brasileira ainda preservava uma notável capacidade de construir entendimentos, em que objetivos eleitorais e circunstâncias do momento frequentemente aproximavam grupos que, em outros períodos, estavam em campos distintos.

   Essa articulação tornou-se visível no grande comício realizado em 21 de julho de 2002, no Terminal Urbano de Lages, escolhido para marcar o início da campanha de Ciro Gomes na região sul do país, a definição da cidade estava longe de ser casual, naquele período, Lages era o maior município catarinense administrado pelo PFL, sob a liderança do prefeito Raimundo Colombo, transformando-se no palco ideal para demonstrar a amplitude daquela aliança e a capacidade de reunir forças políticas historicamente diferentes em torno de uma mesma candidatura presidencial. Sob uma fina chuva e o frio característico da Serra Catarinense, cerca de duas mil pessoas acompanharam o ato político daquela noite de julho, no mesmo palanque estavam Ciro Gomes, Leonel Brizola, Jorge Bornhausen, Sérgio Grando, Raimundo Colombo e diversas lideranças estaduais, a cena era emblemática: representantes da direita conservadora, do trabalhismo e do socialismo dividiam o mesmo espaço em defesa de um projeto nacional.

    Para quem acompanhava aquele processo por dentro, ficava evidente que a política era muito mais dinâmica do que as classificações ideológicas normalmente permitiam enxergar, as circunstâncias eleitorais, os interesses regionais e a capacidade de articulação produziam aproximações que, observadas apenas pela lógica dos rótulos partidários, pareciam improváveis e como dirigente estadual da Juventude Popular Socialista de Santa Catarina (JPS/SC), tive a oportunidade de acompanhar de perto aquele momento. Mais do que participar de um ato de campanha, pude observar como eram construídas as grandes articulações políticas e compreender que, muitas vezes, os bastidores explicam melhor os resultados das urnas do que os próprios discursos públicos.

    Apesar da intensa mobilização, o desempenho de Ciro Gomes em 2002 não repetiu o êxito alcançado quatro anos antes. Embora tenha iniciado a campanha entre os principais concorrentes e, em determinados momentos, ocupado a segunda colocação nas pesquisas, sua candidatura perdeu força na reta final. O cenário convergiu para a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e José Serra (PSDB), consolidando uma polarização que marcaria a política brasileira nas décadas seguintes.

   Concluído o primeiro turno, o PPS decidiu apoiar a candidatura de Lula. A decisão refletia a compreensão de que o país atravessava o encerramento de um ciclo político iniciado nos governos de Fernando Henrique Cardoso e a necessidade de construção de uma nova maioria nacional. Ao mesmo tempo, Lula buscava ampliar seu campo de alianças e reduzir resistências existentes junto ao empresariado, ao sistema financeiro e aos setores produtivos.

    Foi nesse contexto que surgiu a histórica Carta ao Povo Brasileiro, documento no qual o candidato petista reafirmou o compromisso com a estabilidade econômica, o respeito aos contratos, a responsabilidade fiscal e a manutenção dos principais fundamentos macroeconômicos. A escolha do empresário José Alencar (PL) para ocupar a vice-presidência reforçou essa estratégia de diálogo e ajudou a reduzir resistências em relação a uma eventual vitória do PT. A combinação desses fatores alterou significativamente o ambiente eleitoral. Lula deixou de ser visto apenas como o principal candidato de oposição e passou a representar, para amplos setores da sociedade, uma alternativa de mudança construída sobre bases de previsibilidade institucional e econômica.

   No segundo turno, foi eleito Presidente da República com 61,27% dos votos válidos, encerrando os oito anos de governo do PSDB. A frase pronunciada na noite da vitória, “A esperança venceu o medo”, sintetizou o espírito daquele momento histórico.

   Enquanto o país voltava seus olhos para Brasília, Santa Catarina vivia uma disputa igualmente decisiva, Esperidião Amin chegava àquele pleito como governador amparado por uma administração bem avaliada e por uma trajetória política consolidada, iniciando a campanha cercado pelo sentimento de que a reeleição era o caminho mais provável.

   No campo adversário surgia o ex-prefeito de Joinville, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), conhecido por todos como LHS, em uma candidatura que nasceu de uma reviravolta em sua trajetória política, e que ao renunciar ao comando do maior município do Estado para disputar novos espaços na política catarinense, deixou a Prefeitura sob a responsabilidade de seu vice, Marcos Tebaldi (PSDB), movimento que também aproximou os tucanos de seu projeto político e ampliou o arco de alianças que seria construído naquele período. Antes de assumir o desafio da disputa estadual, Luiz Henrique estava envolvido nas articulações nacionais do PMDB para a composição da chapa presidencial de José Serra. Seu nome chegou a ser cogitado para ocupar a vaga de candidato a vice-presidente da República na aliança entre tucanos e peemedebistas, mas as negociações acabaram conduzindo à escolha da deputada federal Rita Camata (PMDB-ES) para compor a chapa presidencial.

   Rita Camata, uma das principais lideranças femininas do PMDB naquele período, esposa do senador Gerson Camata e integrante de uma das forças políticas do partido no Espírito Santo, ganhou espaço nas articulações nacionais que definiram a composição da chapa presidencial. Diante dessa mudança de cenário, Luiz Henrique direcionou sua trajetória para Santa Catarina e aceitou disputar o Governo do Estado em uma eleição considerada por muitos como extremamente difícil.

   Embora carregasse a força política de uma das maiores lideranças do PMDB catarinense, sua candidatura não era vista como favorita. Dentro do próprio partido havia dúvidas quanto à viabilidade daquele projeto, especialmente diante da força política acumulada por Esperidião Amin, da avaliação positiva de seu governo e da percepção predominante de que a continuidade administrativa seria naturalmente confirmada pelas urnas.




A disputa catarinense e a construção da virada histórica


  Um episódio contado por aqueles que acompanharam os bastidores daquela campanha ajuda a dimensionar o cenário inicial vivido por Luiz Henrique da Silveira e Eduardo Pinho Moreira, nos primeiros passos da caminhada eleitoral, quando poucos acreditavam nas chances reais de vitória, a estrutura disponível para a candidatura era bastante limitada. Conta-se que, em algumas regiões, o apoio dos diretórios municipais do PMDB era fundamental até mesmo para auxiliar em despesas básicas da campanha, como o abastecimento do veículo utilizado nas viagens pelo Estado.

   A lembrança, aparentemente simples, revela o ambiente daquela candidatura: um projeto político que partia sem a estrutura dos favoritos e que dependia, sobretudo, da capacidade de seus líderes de percorrer Santa Catarina, dialogar com as comunidades e convencer o eleitorado de que era possível construir uma alternativa ao governo que buscava a continuidade.

   E o confronto entre Esperidião Amin e Luiz Henrique da Silveira carregava uma forte simbologia histórica da política catarinense, mais do que uma disputa entre dois candidatos, representava a retomada de uma antiga divisão de forças que havia marcado o Estado durante décadas. De um lado, estavam os grupos ligados ao antigo PDS e posteriormente ao PPB, identificados popularmente como os “cola-branca”, expressão associada às tradicionais estruturas políticas conservadoras de Santa Catarina. De outro, o PMDB, representado pelo movimento do “manda-brasa”, que havia construído sua identidade a partir da resistência democrática e se consolidado como uma das maiores organizações partidárias do Estado. Ao longo dessa trajetória, esses grupos haviam se alternado no comando de Santa Catarina, formando diferentes alianças e ocupando espaços decisivos na política estadual. O PFL também integrava esse cenário, participando de composições e ciclos de poder que influenciaram os rumos do Estado nas décadas anteriores.

   Essa divisão histórica não ficava restrita ao plano estadual, era reproduzida nos municípios, onde prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias e diretórios partidários funcionavam como bases de sustentação dessas estruturas. Cada eleição municipal representava, de certa forma, mais um capítulo da disputa pela influência regional e pela capacidade de articulação das grandes forças estaduais.

   Também disputava o cargo de governador, José Fritsch, ex-prefeito de Chapecó e uma das principais lideranças do Partido dos Trabalhadores em Santa Catarina, que representava no Estado o projeto nacional de Luiz Inácio Lula da Silva. Embora não tenha avançado ao segundo turno, sua candidatura teve papel relevante naquela conjuntura, tanto pela presença crescente do PT no cenário estadual quanto pela influência que seus votos poderiam exercer na reorganização das alianças na etapa seguinte.

   Encerrada a primeira etapa da votação, Esperidião Amin terminou na liderança, com 1.217.059 votos, correspondentes a 39,86% dos votos válidos. Luiz Henrique da Silveira alcançou 918.615 votos, ou 30,08%, garantindo sua passagem ao segundo turno, enquanto José Fritsch obteve 834.385 votos, equivalentes a 27,33%, ficando fora da fase decisiva por uma diferença relativamente pequena em relação ao segundo colocado. Embora Amin tivesse terminado à frente, a votação demonstrava que a eleição estava muito mais aberta do que se imaginava no início da campanha, a diferença entre os dois primeiros colocados não representava uma vantagem suficiente para assegurar antecipadamente a vitória.

   No primeiro turno, Luiz Henrique ainda mantinha a composição estadual alinhada ao acordo nacional entre PMDB e PSDB, os tucanos integravam a chapa majoritária e haviam indicado Leonel Pavan, ex-prefeito de Balneário Camboriú, para a disputa ao Senado, reproduzindo em Santa Catarina a aliança construída para a candidatura presidencial de José Serra.

   A configuração, porém, começou a se modificar no segundo turno. Com a definição dos palanques nacionais, as forças ligadas a José Serra passaram a se concentrar em torno de Esperidião Amin, aproximando o candidato progressista dos setores tradicionais da política catarinense.

   Para Luiz Henrique, a nova realidade exigia uma mudança de estratégia e uma aproximação com o eleitorado que havia se identificado com Lula e José Fritsch na primeira etapa da eleição. Foi nesse contexto que, em um ato político realizado em Florianópolis, com a presença de Luiz Inácio Lula da Silva e José Fritsch, Luiz Henrique declarou apoio à candidatura petista para a Presidência da República. O gesto possuía grande significado político: mais do que uma manifestação eleitoral, representava uma nova composição de forças, aproximando o PMDB catarinense da onda de mudança que percorria o país e ampliando o campo de apoio à sua candidatura estadual.

      O PPS, embora não tivesse alcançado uma votação expressiva na disputa pelo Governo do Estado, possuía uma estrutura política organizada em importantes regiões de Santa Catarina, com lideranças inseridas nas administrações municipais e nos legislativos locais. Entre seus quadros estavam Nemésio da Silva, vice-prefeito de Chapecó, Inácio Mafra, vice-prefeito de Blumenau, além de vereadores em municípios estratégicos como Lages, Balneário Camboriú, Joinville e Canoinhas, entre outros polos regionais. A legenda também possuía representação na Assembleia Legislativa, tendo como presidente estadual o deputado Jaime Duarte, que, embora não tivesse sido reeleito, participou das articulações que aproximaram o partido da candidatura de Luiz Henrique da Silveira no segundo turno, ao lado de Sérgio Grando e de outras lideranças partidárias. Muito além do que o resultado eleitoral isolado, aquela estrutura demonstrava a capacidade de articulação do PPS e sua importância na construção da nova composição política que começava a se formar em Santa Catarina. Mais do que uma simples soma de apoios, formava-se uma nova correlação de forças. Luiz Henrique demonstrava uma característica que marcaria sua trajetória pública: a capacidade de dialogar com diferentes correntes políticas e reunir grupos distintos em torno de um projeto comum para Santa Catarina.

   A vitória no segundo turno entrou para a história. Luiz Henrique da Silveira alcançou 50,34% dos votos válidos, contra 49,66% obtidos por Esperidião Amin. Uma diferença inferior a vinte mil votos foi suficiente para produzir uma das maiores viradas eleitorais da política catarinense.

   Aquela eleição revelou uma característica singular, com a consolidação da candidatura de Luiz Henrique rumando para o segundo turno, setores do PMDB passaram a estimular o chamado segundo voto em Ideli Salvatti, contribuindo para a convergência política que se estabelecia naquele momento. Ao mesmo tempo, a eleição de Leonel Pavan demonstrava que o eleitor catarinense buscava renovar sua representação sem concentrar todas as escolhas em um único campo político. Assim, a mudança alcançou igualmente a disputa pelo Senado, pois ambos foram eleitos, Ideli e Pavan, superando dois nomes que durante boa parte da campanha figuravam entre os favoritos: Paulinho Bornhausen (PFL), filho do senador Jorge Bornhausen, e Casildo Maldaner (PMDB), que buscava a renovação do mandato.

   Somadas, aquelas vitórias simbolizaram o encerramento de um ciclo e a abertura de uma nova fase na política catarinense e brasileira.

   Anos depois, aquela virada seria resgatada pelo documentário O Dia da Virada, dirigido por Anderson Dresch e Fábio Cabral, que reconstrói os bastidores da campanha de Luiz Henrique da Silveira e demonstra como uma candidatura inicialmente tratada como improvável conseguiu alterar profundamente o rumo da política catarinense.

    Vista em perspectiva, a vitória de LHS representou muito mais do que uma alternância de governo, ela inaugurou um novo ciclo político em Santa Catarina, marcado pela capacidade de articulação, pelo diálogo entre diferentes correntes e a formação de uma ampla base de sustentação que influenciaria os rumos do Estado nos anos seguintes.

     A histórica eleição de 2002 representaria o início de uma complexa engenharia de composições políticas que passaria a orientar o centro das decisões em Santa Catarina ao longo da década seguinte. Mais do que garantir a vitória de Luiz Henrique da Silveira, aquele resultado inaugurou uma nova dinâmica de articulação política, capaz de reunir diferentes legendas em torno de um projeto de governo e de estabelecer uma ampla base de sustentação que influenciaria os rumos do Estado por muitos anos. Para o PPS, significava a abertura de um novo espaço de participação nesse processo de construção política. Para mim, representava o início de uma etapa de maior inserção nos debates públicos, ampliando minha atuação na Juventude Popular Socialista e proporcionando o contato com lideranças, articulações e experiências que, nos anos seguintes, seriam determinantes para minha formação política e institucional.


SC │ Alisson Micoski

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segunda-feira, 20 de julho de 2026

A reorganização do centro político catarinense e o desafio das antigas forças partidárias diante de 2026 I

Muito além das urnas: o ciclo político que marcaria Santa Catarina por quase duas décadas

   As eleições costumam fixar na memória coletiva a imagem de um vencedor e de um vencido. A história política, porém, raramente começa no dia em que os votos são apurados. Antes que uma mudança se torne visível para a sociedade, há um percurso silencioso formado por debates, articulações, aproximações, rupturas e pela lenta construção de lideranças que, somente mais tarde, revelam o alcance das decisões tomadas naquele período.


   Foi assim também em Santa Catarina. A vitória do PMDB, de Luiz Henrique da Silveira sobre o PPB, de Esperidião Amin, em 2002, não representou apenas a alternância no comando do Estado. Vista com o distanciamento que o tempo permite, ela marcou o início de um ciclo político que influenciaria os rumos catarinenses por quase duas décadas. O resultado das urnas sintetizava um processo iniciado anos antes, quando diferentes forças passaram a reorganizar suas estratégias diante de um cenário estadual e nacional em transformação.

   A passagem dos anos 1990 para os anos 2000 foi marcada por profundas mudanças na política brasileira. A redemocratização havia consolidado novas instituições, antigas referências ideológicas eram reavaliadas e diferentes correntes políticas procuravam reposicionar seus projetos diante de uma sociedade que também mudava. Não se tratava apenas da sucessão presidencial que se aproximava, mas da percepção de que um ciclo iniciado após a estabilização econômica chegava ao seu momento de maior desgaste, abrindo espaço para novas leituras sobre o papel do Estado, da economia e da própria representação política.

   Santa Catarina acompanhava esse movimento sem perder as características que historicamente moldaram sua vida pública. A identidade política construída ao longo de décadas permanecia presente, mas começava a conviver com novos arranjos, lideranças emergentes e formas distintas de organização partidária. As mudanças não significavam uma ruptura com a tradição catarinense. Surgiam, antes, da capacidade de diferentes grupos compreenderem que a realidade social e política já não era exatamente a mesma dos anos anteriores.

   Em razão dessa própria dinâmica, dificilmente uma liderança alcançava projeção estadual sem antes percorrer um longo caminho junto às comunidades e aos municípios. Era nesse contato permanente com as diferentes regiões do Estado que reputações eram construídas, vínculos de confiança se consolidavam e amadureciam lideranças capazes de compreender as particularidades catarinenses. Também não foi diferente com a reorganização política que começava a se desenhar. Seus primeiros sinais apareceram muito antes das campanhas eleitorais, ainda restritos aos diretórios partidários, às reuniões regionais e às conversas que, naquele momento, pareciam dizer respeito apenas ao cotidiano da política.

   Foi nesse ambiente que acompanhei parte daqueles acontecimentos. A trajetória que relatei nos capítulos anteriores permitiu-me participar de espaços de formação política e acompanhar discussões que extrapolavam a realidade do município onde vivia. Para quem iniciava a vida pública, aquela experiência representava uma oportunidade rara de observar como diferentes correntes de pensamento construíam suas estratégias, avaliavam cenários e buscavam interpretar um país que atravessava um período de mudanças.

    Entre essas transformações estava o próprio reposicionamento de um campo político identificado com a esquerda democrática. Depois das profundas mudanças ocorridas no cenário internacional durante a década de 1990, ganhava força uma compreensão de que justiça social, desenvolvimento econômico, democracia representativa e pluralismo não eram conceitos incompatíveis, mas elementos que precisavam caminhar conjuntamente. Mais do que uma mudança de discurso, tratava-se da tentativa de responder aos desafios de um novo tempo sem abandonar compromissos históricos com a democracia e com a participação política.

   A partir daquele momento, encontrei espaço para ampliar minha atuação partidária, a legenda à qual passei a integrar buscava formar novos quadros e permitia que jovens lideranças acompanhassem discussões e decisões que dificilmente estariam ao seu alcance em estruturas partidárias mais consolidadas. Mais do que ocupar uma função, aquela experiência proporcionou contato direto com dirigentes de diferentes regiões do Estado e com uma dinâmica política que, anos depois, revelaria sua importância para compreender os acontecimentos que se aproximavam.

   Enquanto Santa Catarina iniciava esse processo de reorganização, o cenário nacional também se transformava, aproximava-se a eleição presidencial de 2002, considerada uma das mais importantes desde a redemocratização. O país chegava ao final dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB)  sob os efeitos da desvalorização cambial de 1999, da crise energética de 2001, do baixo crescimento econômico e de um ambiente que alimentava o desejo por novos rumos.

   Nesse contexto, Ciro Gomes (PPS) apresentava-se como uma alternativa capaz de dialogar com diferentes segmentos da sociedade. Sua candidatura despertava especial atenção entre aqueles que buscavam romper a polarização que gradativamente se consolidava entre PSDB e PT, ao mesmo tempo em que procurava construir um projeto nacional sustentado por palanques estaduais competitivos.

   Foi nesse período que tive a oportunidade de participar da agenda de Ciro Gomes em Porto União, evento que reuniu lideranças políticas, empresários, professores, estudantes, militantes e cidadãos interessados em conhecer uma candidatura que procurava ocupar um espaço próprio no debate nacional. Somente anos depois seria possível perceber que aquele momento integrava um conjunto de acontecimentos muito maior, conectado às transformações que, simultaneamente, se desenhavam em Brasília e no estado de Santa Catarina.

   No plano estadual, os partidos também iniciavam seus movimentos para a sucessão do governo catarinense. As definições que seriam tomadas nos meses seguintes alterariam significativamente o rumo da disputa e dariam início a um dos capítulos mais marcantes da história política recente do Estado.


SC │ Alisson Micoski

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quarta-feira, 15 de julho de 2026

A quadra da história política que vivi: entre mudanças, rupturas e novos caminhos III

Convicções, escolhas e lideranças: a construção de uma visão política

   Toda formação política encontra, em algum momento, sua maior prova: a realidade. As ideias ajudam a compreender princípios, mas é na convivência com pessoas, partidos, lideranças e acontecimentos que elas são continuamente testadas, confirmadas, revistas e amadurecidas. Foi esse contato direto com a realidade que passou a moldar minha compreensão sobre a política como espaço de escolhas, responsabilidade e construção coletiva.

   Vista de perto, a política revela uma dimensão muito diferente daquela percebida apenas pelos debates públicos ou pelos períodos eleitorais. Ela é construída diariamente por relações de confiança, decisões estratégicas, divergências, circunstâncias e pela capacidade de interpretar uma realidade em permanente transformação. É nesse ambiente que princípios deixam de ser apenas referências teóricas para orientar escolhas concretas, muitas vezes tomadas diante de cenários complexos e imperfeitos.

   Com o meu amadurecimento dessa trajetória, tornou-se evidente que nenhuma atuação política ocorre de forma isolada. Cada liderança é moldada por sua história, seus valores, suas experiências e pela visão de mundo que orienta suas escolhas. Da mesma forma, os partidos vão muito além de uma estrutura formal: preservam uma identidade construída ao longo do tempo, expressam uma cultura política própria, adotam modelos específicos de organização e refletem diferentes formas de compreender a sociedade e os desafios coletivos.

   A convivência com diferentes lideranças e distintos momentos da vida pública demonstrou que a trajetória política resulta tanto de convicções quanto de escolhas. As convicções orientam caminhos e revelam valores; as escolhas mostram como esses valores são colocados à prova diante das circunstâncias concretas, dos limites institucionais e das possibilidades de cada tempo histórico.

  É justamente nesse espaço entre princípios e realidade que surgem algumas das lições mais importantes da vida pública. O exercício político exige capacidade de diálogo, compreensão dos diferentes interesses envolvidos e disposição para construir soluções possíveis, mesmo quando as condições ideais não estão presentes.

   A vivência com a qual acumulei, demonstrou que as lideranças políticas são, em grande medida, fruto de seus contextos históricos. Algumas surgem em períodos de transformação social; outras conquistam relevância pela capacidade de interpretar demandas que ainda não encontraram representação adequada. Há aquelas que se afirmam pela força das ideias; outras pela competência administrativa, pela habilidade de articulação ou pela proximidade com determinadas comunidades.

   Existem também lideranças cuja trajetória é construída no interior de organizações políticas, nas quais o coletivo identifica vocações, forma quadros e, no momento oportuno, confia a determinados integrantes a missão de representar um projeto, conduzir uma agenda pública ou assegurar a continuidade de uma estratégia construída coletivamente. Em muitos casos, essas lideranças sequer iniciam sua caminhada com a pretensão de ocupar posições de protagonismo. São reconhecidas pelo trabalho, pela disciplina, pela capacidade de execução, pela lealdade ao projeto comum e pela confiança conquistada ao longo do tempo, até que as circunstâncias e a própria organização lhes atribuam responsabilidades cada vez maiores.

   Nenhuma liderança permanece relevante apenas pela posição que ocupa. A permanência na vida pública depende da capacidade de renovar vínculos, compreender as mudanças da sociedade e responder aos novos desafios que surgem ao longo do tempo.

   A análise dos diferentes ciclos políticos permitiu-me perceber que os partidos também possuem trajetórias próprias. Nascem em determinados contextos, crescem quando conseguem interpretar demandas sociais e perdem espaço quando deixam de compreender as transformações da sociedade. Muito além dos resultados eleitorais, a vida partidária envolve formação de quadros, construção de confiança, presença regional, capacidade de organização e o surgimento de lideranças aptas a representar seus valores perante a população.

   Essa percepção é especialmente relevante em um Estado como Santa Catarina, cuja cultura política sempre valorizou a proximidade entre representantes e comunidades, a força das lideranças locais e a importância dos municípios na construção da representação política. Essa identidade ajudou a formar uma tradição de forte participação comunitária e de permanente diálogo entre a política e a realidade cotidiana das pessoas.

   Ao mesmo tempo, essa característica evidencia um dos grandes desafios da política contemporânea: equilibrar a proximidade com a população, indispensável à boa liderança, com a capacidade de formular projetos de médio e longo prazo. O contato permanente com os problemas cotidianos é essencial, mas precisa caminhar ao lado do planejamento, do estudo e da preparação.

   Grandes transformações raramente acontecem por improviso. Elas resultam de organização, formação de equipes, capacidade de interpretar o momento histórico e clareza quanto aos objetivos que se pretende alcançar. A história demonstra que as lideranças mais marcantes foram aquelas capazes de combinar sensibilidade diante da realidade com visão de futuro. Não basta perceber os problemas; é preciso compreender suas causas, formular alternativas e reunir as condições necessárias para transformar ideias em resultados.

   Talvez um dos maiores desafios da política seja justamente superar a lógica da urgência permanente. A capacidade de responder aos problemas imediatos é indispensável, mas ela precisa estar acompanhada da construção de projetos capazes de orientar o futuro. A administração do presente não pode impedir a preparação do amanhã.

   O acompanhamento de diferentes estilos de liderança reforçou essa compreensão ao longo da vida pública. Algumas exercem suas funções com elevado senso de responsabilidade, dedicação e profundo compromisso com o interesse coletivo. Muitas vezes, destacam-se pela competência técnica, pela capacidade de gestão e pela eficiência na execução das políticas públicas. Outras possuem maior vocação para a articulação, para a construção de consensos e para a formação de maiorias políticas. Em qualquer hipótese, nenhuma dessas qualidades, isoladamente, é suficiente.

   Administrar bem é condição necessária, mas não esgota o exercício da política. O gestor precisa entregar resultados, organizar estruturas e assegurar o funcionamento adequado dos serviços públicos. O líder político, por sua vez, precisa ir além: interpretar cenários, compreender os movimentos da sociedade, formar equipes, construir alianças, comunicar propósitos e projetar caminhos que ultrapassem os limites do presente.

   Essa distinção ajuda a compreender por que excelentes administradores, por vezes, encontram dificuldades na arena política, assim como líderes de grande capacidade de mobilização nem sempre conseguem produzir governos eficientes. Gestão e política dialogam permanentemente, mas pertencem a dimensões distintas de uma mesma realidade. A primeira concentra-se na execução; a segunda exige, além dela, visão estratégica, capacidade de convencimento, construção de legitimidade e a habilidade de reunir pessoas em torno de um propósito comum.

   E a convivência com diferentes perfis de liderança fortaleceu em mim uma convicção amadurecida ao longo dos anos: A atividade política não deve ser vista como obstáculo à boa gestão, mas como o espaço democrático em que a sociedade define prioridades, estabelece consensos possíveis e escolhe os caminhos pelos quais pretende conduzir seu próprio desenvolvimento.

   Foi também ao longo dessa trajetória que se tornou evidente o quanto Santa Catarina possui uma identidade política singular. O Estado consolidou uma cultura fortemente marcada pela valorização do trabalho, do empreendedorismo, da organização comunitária e pelo protagonismo das lideranças locais. A proximidade entre representantes e cidadãos, característica histórica da vida pública catarinense, permitiu que muitas lideranças construíssem sua credibilidade pela convivência direta com suas comunidades e pela capacidade de oferecer respostas concretas às demandas do cotidiano.

   Essa tradição permanece como uma das maiores virtudes da política catarinense. Os desafios das últimas duas décadas, contudo, passaram a exigir que essa proximidade viesse acompanhada de planejamento, formação permanente e visão estratégica. Infraestrutura, desenvolvimento regional, inovação, sustentabilidade, educação, equilíbrio fiscal e competitividade econômica deixaram de admitir soluções improvisadas. São temas que exigem continuidade administrativa, capacidade de coordenação e projetos capazes de ultrapassar os limites de um mandato.

   

   Nesse aspecto, a trajetória de Juscelino Kubitschek permanece como uma referência inspiradora, reconhecido como um dos mais hábeis estrategistas políticos da história brasileira, ele combinava rara capacidade de articulação, construção de consensos e visão de longo prazo. 

   Sua liderança não se limitava à administração do governo; era marcada pela habilidade de reunir diferentes forças em torno de um projeto nacional de desenvolvimento. Ao afirmar que "a solução de nossos problemas está no planejamento", deixou uma lição que transcende a administração dos governos. O planejamento também orienta a formação das lideranças, a construção de projetos coletivos e a consolidação de trajetórias públicas comprometidas com objetivos que ultrapassam interesses imediatos.             

   Quem escolhe a vida política precisa compreender que a liderança não se improvisa., ela se constrói com estudo, experiência, capacidade de ouvir, disposição para formar novos líderes, capacidade de reunir pessoas em torno de propósitos comuns e clareza sobre o futuro que se pretende ajudar a construir. Talvez por isso a mensagem de Juscelino permaneça tão atual: planejar não é apenas organizar ações; é cultivar uma visão de longo prazo para as instituições, para a sociedade e para a própria missão de servir ao interesse público. 

   Essa lição continua atual não apenas para quem governa, mas também para aqueles que escolhem a política como missão pública, assumem responsabilidades de liderança ou desejam construir, de forma ética, responsável e consistente, uma trajetória capaz de contribuir para a construção de uma sociedade mais desenvolvida, justa e democrática.

   Ao mesmo tempo em que esses desafios se ampliavam, a própria atividade política passava por uma transformação silenciosa, porém profunda. Quem acompanhou as últimas duas décadas percebe que a dinâmica das disputas eleitorais, da comunicação e da formação das lideranças mudou de maneira significativa. No início desse período, a política ainda se desenvolvia, predominantemente, em um ambiente presencial. As articulações aconteciam nas reuniões partidárias, nos encontros regionais, nas visitas às comunidades e no diálogo construído face a face.

   Naquele contexto, os partidos exerciam influência ainda mais decisiva sobre a organização da vida pública. Seus dirigentes possuíam maior capacidade de identificar lideranças, formar novos quadros, construir consensos internos e impulsionar candidaturas alinhadas aos projetos e aos valores partidários. A vida partidária constituía o principal espaço de formação política, onde experiências eram compartilhadas, lideranças amadureciam e projetos coletivos encontravam direção.

   Durante esse período, entretanto, essa dinâmica começou a ser redesenhada. A expansão da internet, das redes sociais e das novas tecnologias de comunicação modificou não apenas a maneira de realizar campanhas eleitorais, mas também a forma como a sociedade acompanha os acontecimentos públicos, participa do debate e estabelece vínculos com seus representantes. A informação passou a circular em tempo real, o eleitor tornou-se mais conectado e novos espaços de influência passaram a coexistir com aqueles tradicionalmente ocupados pelos partidos.

   Isso não significa que as instituições partidárias tenham perdido sua relevância. Permanecem essenciais ao funcionamento da democracia representativa e continuam sendo o principal ambiente de organização da atividade política. O que se transformou foi a forma de exercer essa missão. A engenharia política das últimas duas décadas tornou-se mais dinâmica, mais aberta e muito menos previsível do que no início desse período. A construção das lideranças passou a conviver com novos fatores de influência, novas formas de comunicação e novos espaços de participação, exigindo capacidade permanente de adaptação sem abrir mão dos valores que sustentam a boa política.

   Entender essa mudança é fundamental para interpretar a evolução da política catarinense nas últimas duas décadas. Muitas das reorganizações partidárias, do surgimento de novas lideranças e da própria dinâmica eleitoral somente ganham sentido quando observadas à luz desse novo contexto.

   Ao revisitar essa caminhada, torna-se evidente que a política não pode ser compreendida apenas pelos seus momentos de disputa. Ela é construída diariamente por escolhas, estratégias, instituições e pessoas que, em diferentes circunstâncias, assumem a responsabilidade de conduzir processos coletivos e responder às transformações da sociedade.

   O exercício da liderança exige equilíbrio entre tradição e renovação. É necessário conhecer a história, respeitar as experiências acumuladas e, ao mesmo tempo, desenvolver sensibilidade para perceber mudanças que ainda estão em formação. A vocação aproxima o líder das pessoas; o preparo oferece os instrumentos para compreender a complexidade dos problemas; e a estratégia transforma propósitos em caminhos possíveis. Quando esses elementos caminham juntos, a política deixa de ser apenas reação aos acontecimentos e passa a exercer sua verdadeira função: construir o futuro.

   Essa nova perspectiva alterou também a forma como passei a observar a vida partidária catarinense. Os acontecimentos deixaram de ser episódios isolados e passaram a revelar conexões mais amplas, nas quais decisões aparentemente circunstanciais produziam consequências que somente se tornariam visíveis algum tempo depois. Mudanças de lideranças, reorganizações partidárias, alianças, rupturas e reposicionamentos raramente nasceram do acaso; foram respostas a contextos específicos e às transformações experimentadas pela própria sociedade.

   Foi nesse contexto que Santa Catarina passou a assistir a um lento processo de reorganização de seu centro político. Lideranças mudaram de posição, partidos precisaram redefinir estratégias, novas forças surgiram e antigas estruturas passaram a enfrentar desafios que até então pareciam distantes. A compreensão desse movimento não começa nas eleições de 2026; começa muito antes delas. É essa história, construída entre aproximações, rupturas, reorganizações e novas lideranças, que passa a ser contada a partir do próximo capítulo.


SC │ Alisson Micoski

Advogado, articulador e analista político

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terça-feira, 14 de julho de 2026

A quadra da história política que vivi: entre mudanças, rupturas e novos caminhos II

 As ideias que moldaram meu olhar sobre a política

  A política sempre me despertou uma inquietação que ultrapassa a disputa eleitoral e a ocupação de espaços de poder. Mais do que escolher representantes ou disputar posições, ela revela a permanente tentativa humana de organizar a vida em sociedade, definir prioridades e construir caminhos diante de problemas que raramente possuem respostas simples. Existe uma dimensão mais profunda nesse campo de atuação: compreender as razões que movem as pessoas, as instituições e as escolhas que determinam os rumos de uma comunidade.

  Essa inquietação acompanhou toda a minha trajetória. A convivência com diferentes momentos, lideranças e ambientes políticos revelou que a experiência prática, embora indispensável, não oferece sozinha todas as respostas. A vivência aproxima da realidade, evidencia os desafios concretos e demonstra que, entre uma intenção legítima e sua transformação em resultado, existe um caminho marcado por circunstâncias, escolhas e capacidade de articulação.

  O estudo, por sua vez, permite interpretar acontecimentos, compreender contextos e enxergar além das urgências do cotidiano. A política vivida sem reflexão corre o risco de transformar-se apenas em reação aos fatos; a reflexão distante da realidade pode perder contato com os problemas concretos que pretende enfrentar. Foi justamente nesse encontro entre experiência e conhecimento que procurei construir minha formação intelectual.

  Nunca busquei autores apenas para confirmar convicções previamente estabelecidas. Pelo contrário, aproximei-me de diferentes correntes de pensamento porque sempre acreditei que a inteligência política amadurece quando é desafiada. As leituras mais importantes foram justamente aquelas capazes de provocar dúvidas, ampliar horizontes e demonstrar que problemas complexos dificilmente encontram respostas simples. Uma consciência política não se forma pela repetição de discursos nem pela adesão automática a determinadas correntes, mas pela disposição permanente de dialogar com diferentes interpretações da realidade.

   Ao longo dessa formação, procurei conhecer diferentes tradições de pensamento que, embora muitas vezes apresentadas como antagônicas, contribuíram para ampliar minha compreensão sobre a política, o Estado, a democracia e a sociedade. Nunca enxerguei essas correntes como compartimentos fechados, mas como diferentes formas de interpretar uma realidade complexa, da qual nenhuma perspectiva consegue se apropriar integralmente.

   No campo das ideias liberais, John Stuart Mill tornou-se uma referência importante, assim como as publicações da então Fundação Milton Campos — atualmente Fundação Francisco Dornelles. Essas leituras ampliaram meu olhar sobre liberdade individual, democracia representativa, pluralismo político, livre iniciativa, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e os limites da atuação estatal. Mais do que conceitos abstratos, esses valores passaram a representar uma forma de compreender a sociedade, reconhecendo a liberdade como condição essencial para que cada pessoa possa desenvolver seus talentos, empreender, inovar e participar ativamente da vida coletiva.

   Com o tempo, essa reflexão revelou que a liberdade não se resume à ausência de impedimentos. Ela depende da existência de oportunidades concretas para que cada indivíduo possa construir seu próprio projeto de vida. Uma sociedade verdadeiramente livre precisa estimular a iniciativa, o mérito e a criatividade, sem ignorar os obstáculos que ainda limitam a capacidade de muitos cidadãos de realizar plenamente suas potencialidades.

   Por outro lado, a experiência no movimento estudantil e, posteriormente, no Partido Popular Socialista aproximou-me de outra tradição de pensamento: o humanismo democrático. Mais do que uma filiação partidária, encontrei ali uma reflexão comprometida com a defesa da cidadania, da dignidade da pessoa humana, da democracia pluralista e da justiça social. Foi nesse ambiente que amadureceram reflexões sobre redução das desigualdades, desenvolvimento responsável e o papel das políticas públicas como instrumentos capazes de ampliar oportunidades.

  Embora possuam origens distintas, essas tradições revelaram, para mim, importantes pontos de convergência. A liberdade perde parte de seu significado quando parcela expressiva da população não encontra condições reais para exercê-la; da mesma forma, políticas sociais permanentes dependem de uma economia dinâmica, de responsabilidade na gestão dos recursos públicos e de instituições capazes de assegurar estabilidade, segurança jurídica e desenvolvimento.

   Foi justamente essa convivência entre diferentes tradições de pensamento que consolidou uma convicção que permanece presente: os melhores caminhos raramente surgem dos extremos. Eles costumam nascer da capacidade de aproximar ideias distintas, reconhecer seus limites e construir soluções equilibradas para desafios que não admitem simplificações.

  Nesse percurso intelectual, autores como Norberto Bobbio, Alexis de Tocqueville, Raymundo Faoro, Amartya Sen e Celso Furtado ampliaram significativamente minha compreensão sobre democracia, cidadania, formação do Estado brasileiro, desenvolvimento, desigualdades e liberdade. Cada um, a seu modo, demonstrou que nenhuma corrente de pensamento possui, isoladamente, todas as respostas para a complexidade da vida pública. A democracia fortalece-se justamente pela convivência entre diferentes ideias e pela capacidade de construir consensos sem eliminar a pluralidade.

  Minha formação também foi enriquecida pelos clássicos da estratégia. Em Nicolau Maquiavel, especialmente em O Príncipe, encontrei uma análise realista sobre o exercício do poder, fundada nas circunstâncias históricas, nas relações de força e nos desafios enfrentados por aqueles que exercem a liderança. Sua obra demonstra que governar exige mais do que boas intenções: exige conhecimento da realidade, prudência, capacidade de adaptação e compreensão do tempo histórico.

   Em Sun Tzu, autor de A Arte da Guerra, encontrei princípios que ultrapassam o universo militar e dialogam diretamente com a vida pública. A distinção entre estratégia e tática tornou-se uma referência permanente para compreender que nenhuma transformação consistente nasce do improviso. Grandes resultados dependem de planejamento, preparação, conhecimento do ambiente, formação de equipes e clareza quanto aos objetivos que se pretende alcançar.

   A formação jurídica acrescentou outra dimensão essencial a esse percurso. O estudo do Direito aprofundou minha compreensão sobre o Estado Democrático de Direito, os direitos fundamentais, a separação dos Poderes e a segurança jurídica como pilares indispensáveis para uma sociedade livre, organizada e comprometida com a preservação das instituições democráticas.

   No campo do Direito Administrativo e do Direito Público, autores como Maria Sylvia Zanella Di Pietro, Celso Antônio Bandeira de Mello e José dos Santos Carvalho Filho contribuíram decisivamente para ampliar minha percepção sobre a organização da Administração Pública, os princípios que orientam a atuação estatal, os limites do poder administrativo e a responsabilidade daqueles que exercem funções públicas. Seus ensinamentos demonstram que o Estado não representa apenas uma estrutura formal de autoridade, mas um instrumento voltado à realização do interesse público, permanentemente submetido aos princípios da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência.

   Essa compreensão ganhou contornos ainda mais concretos quando passou a dialogar com a prática. Em 2010, tive a oportunidade de atuar como assistente no Gabinete da Secretaria de Estado da Assistência Social de Santa Catarina, experiência que proporcionou contato direto com a formulação e a implementação de políticas públicas voltadas à proteção social, ao fortalecimento da cidadania e à promoção da inclusão. Acompanhando de perto a construção e a execução dessas políticas, percebi que governar exige muito mais do que boas intenções: requer capacidade de transformar princípios em ações concretas, administrar recursos limitados, estabelecer prioridades e compreender as múltiplas realidades que convivem em uma mesma sociedade.

   Dois anos depois, em 2012, assumi a Gerência do Procon de Florianópolis, onde pude vivenciar, diariamente, os desafios da defesa do consumidor, da mediação de conflitos e da efetivação dos direitos assegurados pelo ordenamento jurídico. Foi nesse percurso que o Direito deixou de ser apenas objeto de estudo para tornar-se instrumento concreto de transformação social.

   O contato cotidiano com consumidores, fornecedores, órgãos públicos e instituições responsáveis pela proteção da cidadania reforçou a percepção de que os direitos somente alcançam sua plenitude quando conseguem produzir efeitos concretos na vida das pessoas. Mais do que interpretar normas, tornou-se necessário compreender conflitos, construir soluções, estimular a conciliação e fortalecer mecanismos capazes de equilibrar relações naturalmente desiguais.

   Nesse ambiente, o estudo do Direito do Consumidor revelou-se uma verdadeira escola de cidadania. As contribuições de Cláudia Lima Marques, Bruno Miragem, Rizzatto Nunes e Antônio Herman Benjamin ampliaram minha compreensão sobre a vulnerabilidade do consumidor, a boa-fé objetiva, a proteção da confiança, o equilíbrio das relações de consumo e a centralidade da dignidade da pessoa humana como fundamento das políticas públicas voltadas à defesa dos cidadãos. A convivência diária com essas questões demonstrou que a proteção do consumidor ultrapassa a solução de conflitos individuais: representa uma política pública voltada ao fortalecimento da cidadania, à redução das desigualdades nas relações econômicas e à concretização dos direitos fundamentais.

   Essa vivência também permitiu compreender que o Estado exerce um papel indispensável na harmonização das relações sociais, não como um fim em si mesmo, mas como instrumento voltado à realização do interesse público. A boa administração, o respeito às garantias individuais, a segurança jurídica e a efetividade dos direitos caminham lado a lado e constituem pressupostos para a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas.

   Ao longo dessa caminhada, tornou-se evidente que uma democracia não se sustenta apenas pela realização periódica de eleições. Ela depende da preservação cotidiana dos direitos fundamentais, da confiança nas instituições, da observância das regras democráticas e da existência de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres. Cidadania não é apenas um conceito jurídico; é uma prática permanente de participação, responsabilidade e compromisso com a construção da vida coletiva.

   E desse percurso, marcado pela espiritualidade, pela liderança comunitária, pela participação no movimento estudantil, pela atuação partidária, pela formação jurídica, pela experiência na gestão pública e pelo contato permanente com diferentes correntes de pensamento, que se consolidou minha maneira de compreender a vida pública. Uma visão construída na busca permanente de equilíbrio entre liberdade, desenvolvimento econômico, responsabilidade fiscal, justiça social, fortalecimento da cidadania e respeito aos fundamentos do Estado Democrático de Direito.

  Mais do que escolher entre uma tradição ou outra, procurei compreender aquilo que cada uma oferece de melhor para enfrentar os desafios concretos da sociedade. Essa busca pelo equilíbrio não representa ausência de convicções; revela, antes, a compreensão de que a realidade política é sempre mais complexa do que qualquer fórmula pronta e exige permanente disposição para aprender, revisar posições e construir consensos possíveis.

  Entretanto, nenhuma convicção permanece intacta quando encontra a realidade. Os livros ajudam a compreender princípios; a vida pública revela seus limites, suas possibilidades e, sobretudo, a necessidade permanente de conciliar ideias com circunstâncias concretas. Foi justamente esse encontro entre formação intelectual e experiência política que passou a moldar minha compreensão sobre liderança, partidos, escolhas e processos de decisão. As ideias que orientaram meu olhar precisaram dialogar, diariamente, com pessoas, instituições, interesses legítimos e desafios que jamais se apresentam exatamente como descrevem os livros. 

   Foi nesse ambiente, marcado pela convivência com diferentes lideranças, projetos, vitórias, divergências e transformações políticas, que a teoria encontrou sua maior prova: a realidade. É a partir desse encontro entre convicções e experiência que se inicia a próxima etapa desta caminhada, acompanhando os personagens, os acontecimentos e os ciclos que ajudaram a moldar uma geração da política catarinense.

SC │ Alisson Micoski

Advogado, articulador e analista político

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

A quadra da história política que vivi: entre mudanças, rupturas e novos caminhos I

 As primeiras escolas da vida pública

   Não escrevo estas linhas como protagonista dos grandes acontecimentos que marcaram a política catarinense e brasileira nas últimas décadas. Escrevo como alguém que teve o privilégio de atravessar esse período acompanhando lideranças, participando de debates, vivenciando processos políticos e testemunhando transformações que ajudaram a moldar uma geração. Ao longo dessa caminhada, aprendi que a política não se resume às eleições, aos mandatos ou aos partidos. Ela nasce muito antes disso, nas comunidades, nas instituições, nas experiências coletivas e nas pessoas que ajudam a formar nossa maneira de compreender o mundo.

   Minha história começou em uma realidade bastante singular. Cresci entre duas cidades que, embora pertençam a estados distintos, compartilham uma mesma dinâmica social, econômica e cultural. Porto União, em Santa Catarina, e União da Vitória, no Paraná, formam praticamente um único núcleo urbano, separados apenas pela linha divisória entre os dois estados. Essa condição permitiu que, desde muito cedo, eu transitasse naturalmente entre diferentes ambientes, ampliando minha convivência com pessoas, instituições e formas distintas de organização comunitária.

   Foi justamente nesse contexto que se desenvolveu uma das experiências mais marcantes da minha juventude. Entre a primeira metade da década de 1990 e o início dos anos 2000, participei ativamente do Mini Treinamento de Liderança Cristã (Mini TLC), da Diocese de União da Vitória, movimento voltado à formação de adolescentes e jovens por meio da espiritualidade, da convivência comunitária e do exercício da liderança cristã. Posteriormente, essa caminhada prosseguiu no Movimento de Jovens Viva Vida, fortalecendo valores que permanecem presentes até hoje: o espírito de serviço, a responsabilidade com o próximo, a importância da escuta, do diálogo e da construção coletiva. Ali compreendi que liderar não significa ocupar espaços de poder, mas colocar-se à disposição das pessoas.

   Paralelamente, iniciava minha atuação no movimento estudantil secundarista em Porto União, ao lado de outros estudantes, participei da criação e reorganização de diversos grêmios estudantis nas escolas do município, experiência que culminou com a fundação da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Porto União (UMESPU). Foi minha primeira grande e importante vivência direta com a representação institucional, a organização coletiva e a defesa de interesses comuns. Muito antes da militância partidária, compreendi que a política nasce da capacidade de ouvir, construir consensos e transformar demandas da comunidade em ações concretas.

   Ainda no final da década de 1990, iniciei minha caminhada partidária ao filiar-me ao Partido Progressista. Foi meu primeiro contato com a vida político-partidária organizada, em um período em que a política catarinense ainda era fortemente marcada pela influência das lideranças regionais, pela atuação dos diretórios municipais e pela construção de alianças como elemento central das disputas eleitorais. Essa experiência permitiu conhecer uma tradição política voltada ao municipalismo, ao desenvolvimento econômico e ao fortalecimento da iniciativa privada como instrumento de geração de oportunidades.


Filiação ao PPS em 2021, destaque a Sérgio Grando e Jaime Manteli 

   No início de 2001, em um cenário de transformações na política nacional, optei por ingressar no Partido Popular Socialista (PPS). A decisão foi influenciada pelo ambiente político que se formava em torno da candidatura presidencial de Ciro Gomes em 2002, vista por muitos como uma alternativa ao processo de polarização que começava a ganhar força no país. Ao mesmo tempo, passei a integrar a Juventude Popular Socialista (JPS), experiência que ampliou significativamente minha formação política.

   A peculiaridade de viver entre Porto União e União da Vitória tornou essa experiência ainda mais rica, permitindo uma intensa participação nas atividades da juventude partidária tanto em Santa Catarina quanto no Paraná. Esse intercâmbio proporcionou contato com diferentes lideranças, culturas políticas e formas de organização partidária, ampliando minha compreensão sobre a realidade política para além dos limites administrativos dos estados e reforçando a percepção de que os desafios da sociedade raramente se encerram nas fronteiras geográficas.

   Já na universidade, ao ingressar no curso de Direito, essa caminhada ganhou novos contornos, a participação no movimento estudantil universitário catarinense coincidiu com um período de intensos debates sobre o acesso ao ensino superior e sobre o papel das universidades comunitárias no desenvolvimento regional. Uma das principais bandeiras daquele momento era a consolidação das políticas previstas nos artigos 170 e 171 da Constituição do Estado de Santa Catarina, instrumentos que ampliaram o acesso de milhares de estudantes às instituições do sistema ACAFE e que, anos depois, encontrariam novos desdobramentos com a criação do Programa Universidade Gratuita.

   Mais do que as conquistas institucionais, aquele período proporcionou algo igualmente valioso: o convívio com jovens lideranças de diferentes regiões do Estado, representantes de distintas correntes políticas, movimentos estudantis e organizações partidárias. Muitos deles tornaram-se, posteriormente, protagonistas da vida pública catarinense. 

   A universidade ensinou-me que a diversidade de ideias não representa uma fragilidade da democracia, mas uma de suas maiores virtudes. Foi justamente nesse ambiente plural, marcado pelo debate, pela convivência com diferentes visões de mundo e pela permanente busca de respostas para os desafios da sociedade, que amadureceu o interesse por compreender a política para além da militância e da prática cotidiana. A partir daí, a leitura, o estudo e o contato com diferentes correntes de pensamento passaram a ocupar papel decisivo na construção do olhar que procuro compartilhar nesta série.

SC │ Alisson Micoski
Advogado, articulador e analista político

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