As primeiras escolas da vida pública
Não escrevo estas linhas como protagonista dos grandes acontecimentos que marcaram a política catarinense e brasileira nas últimas décadas. Escrevo como alguém que teve o privilégio de atravessar esse período acompanhando lideranças, participando de debates, vivenciando processos políticos e testemunhando transformações que ajudaram a moldar uma geração. Ao longo dessa caminhada, aprendi que a política não se resume às eleições, aos mandatos ou aos partidos. Ela nasce muito antes disso, nas comunidades, nas instituições, nas experiências coletivas e nas pessoas que ajudam a formar nossa maneira de compreender o mundo.
Minha história começou em uma realidade bastante singular. Cresci entre duas cidades que, embora pertençam a estados distintos, compartilham uma mesma dinâmica social, econômica e cultural. Porto União, em Santa Catarina, e União da Vitória, no Paraná, formam praticamente um único núcleo urbano, separados apenas pela linha divisória entre os dois estados. Essa condição permitiu que, desde muito cedo, eu transitasse naturalmente entre diferentes ambientes, ampliando minha convivência com pessoas, instituições e formas distintas de organização comunitária.
Foi justamente nesse contexto que se desenvolveu uma das experiências mais marcantes da minha juventude. Entre a primeira metade da década de 1990 e o início dos anos 2000, participei ativamente do Mini Treinamento de Liderança Cristã (Mini TLC), da Diocese de União da Vitória, movimento voltado à formação de adolescentes e jovens por meio da espiritualidade, da convivência comunitária e do exercício da liderança cristã. Posteriormente, essa caminhada prosseguiu no Movimento de Jovens Viva Vida, fortalecendo valores que permanecem presentes até hoje: o espírito de serviço, a responsabilidade com o próximo, a importância da escuta, do diálogo e da construção coletiva. Ali compreendi que liderar não significa ocupar espaços de poder, mas colocar-se à disposição das pessoas.
Paralelamente, iniciava minha atuação no movimento estudantil secundarista em Porto União, ao lado de outros estudantes, participei da criação e reorganização de diversos grêmios estudantis nas escolas do município, experiência que culminou com a fundação da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Porto União (UMESPU). Foi minha primeira grande e importante vivência direta com a representação institucional, a organização coletiva e a defesa de interesses comuns. Muito antes da militância partidária, compreendi que a política nasce da capacidade de ouvir, construir consensos e transformar demandas da comunidade em ações concretas.
Ainda no final da década de 1990, iniciei minha caminhada partidária ao filiar-me ao Partido Progressista. Foi meu primeiro contato com a vida político-partidária organizada, em um período em que a política catarinense ainda era fortemente marcada pela influência das lideranças regionais, pela atuação dos diretórios municipais e pela construção de alianças como elemento central das disputas eleitorais. Essa experiência permitiu conhecer uma tradição política voltada ao municipalismo, ao desenvolvimento econômico e ao fortalecimento da iniciativa privada como instrumento de geração de oportunidades.
No início de 2001, em um cenário de transformações na política nacional, optei por ingressar no Partido Popular Socialista (PPS). A decisão foi influenciada pelo ambiente político que se formava em torno da candidatura presidencial de Ciro Gomes em 2002, vista por muitos como uma alternativa ao processo de polarização que começava a ganhar força no país. Ao mesmo tempo, passei a integrar a Juventude Popular Socialista (JPS), experiência que ampliou significativamente minha formação política.
A peculiaridade de viver entre Porto União e União da Vitória tornou essa experiência ainda mais rica, permitindo uma intensa participação nas atividades da juventude partidária tanto em Santa Catarina quanto no Paraná. Esse intercâmbio proporcionou contato com diferentes lideranças, culturas políticas e formas de organização partidária, ampliando minha compreensão sobre a realidade política para além dos limites administrativos dos estados e reforçando a percepção de que os desafios da sociedade raramente se encerram nas fronteiras geográficas.
Já na universidade, ao ingressar no curso de Direito, essa caminhada ganhou novos contornos, a participação no movimento estudantil universitário catarinense coincidiu com um período de intensos debates sobre o acesso ao ensino superior e sobre o papel das universidades comunitárias no desenvolvimento regional. Uma das principais bandeiras daquele momento era a consolidação das políticas previstas nos artigos 170 e 171 da Constituição do Estado de Santa Catarina, instrumentos que ampliaram o acesso de milhares de estudantes às instituições do sistema ACAFE e que, anos depois, encontrariam novos desdobramentos com a criação do Programa Universidade Gratuita.
Mais do que as conquistas institucionais, aquele período proporcionou algo igualmente valioso: o convívio com jovens lideranças de diferentes regiões do Estado, representantes de distintas correntes políticas, movimentos estudantis e organizações partidárias. Muitos deles tornaram-se, posteriormente, protagonistas da vida pública catarinense. A universidade ensinou-me que a diversidade de ideias não representa uma fragilidade da democracia, mas uma de suas maiores virtudes. Foi justamente nesse ambiente plural, marcado pelo debate, pela convivência com diferentes visões de mundo e pela permanente busca de respostas para os desafios da sociedade, que amadureceu o interesse por compreender a política para além da militância e da prática cotidiana. A partir daí, a leitura, o estudo e o contato com diferentes correntes de pensamento passaram a ocupar papel decisivo na construção do olhar que procuro compartilhar nesta série.
SC │ Alisson Micoski
Advogado, articulador e analista político
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