Muito além das urnas: o ciclo político que marcaria
Santa Catarina por quase duas décadas
As eleições costumam fixar na memória coletiva a imagem de um vencedor e de um vencido. A história política, porém, raramente começa no dia em que os votos são apurados. Antes que uma mudança se torne visível para a sociedade, há um percurso silencioso formado por debates, articulações, aproximações, rupturas e pela lenta construção de lideranças que, somente mais tarde, revelam o alcance das decisões tomadas naquele período.
Foi assim também em Santa Catarina. A vitória do PMDB, de Luiz Henrique da Silveira sobre o PPB, de Esperidião Amin, em 2002, não representou apenas a alternância no comando do Estado. Vista com o distanciamento que o tempo permite, ela marcou o início de um ciclo político que influenciaria os rumos catarinenses por quase duas décadas. O resultado das urnas sintetizava um processo iniciado anos antes, quando diferentes forças passaram a reorganizar suas estratégias diante de um cenário estadual e nacional em transformação.
A passagem dos anos 1990 para os anos 2000 foi marcada por profundas mudanças na política brasileira. A redemocratização havia consolidado novas instituições, antigas referências ideológicas eram reavaliadas e diferentes correntes políticas procuravam reposicionar seus projetos diante de uma sociedade que também mudava. Não se tratava apenas da sucessão presidencial que se aproximava, mas da percepção de que um ciclo iniciado após a estabilização econômica chegava ao seu momento de maior desgaste, abrindo espaço para novas leituras sobre o papel do Estado, da economia e da própria representação política.
Santa Catarina acompanhava esse movimento sem perder as características que historicamente moldaram sua vida pública. A identidade política construída ao longo de décadas permanecia presente, mas começava a conviver com novos arranjos, lideranças emergentes e formas distintas de organização partidária. As mudanças não significavam uma ruptura com a tradição catarinense. Surgiam, antes, da capacidade de diferentes grupos compreenderem que a realidade social e política já não era exatamente a mesma dos anos anteriores.
Em razão dessa própria dinâmica, dificilmente uma liderança alcançava projeção estadual sem antes percorrer um longo caminho junto às comunidades e aos municípios. Era nesse contato permanente com as diferentes regiões do Estado que reputações eram construídas, vínculos de confiança se consolidavam e amadureciam lideranças capazes de compreender as particularidades catarinenses. Também não foi diferente com a reorganização política que começava a se desenhar. Seus primeiros sinais apareceram muito antes das campanhas eleitorais, ainda restritos aos diretórios partidários, às reuniões regionais e às conversas que, naquele momento, pareciam dizer respeito apenas ao cotidiano da política.
Foi nesse ambiente que acompanhei parte daqueles acontecimentos. A trajetória que relatei nos capítulos anteriores permitiu-me participar de espaços de formação política e acompanhar discussões que extrapolavam a realidade do município onde vivia. Para quem iniciava a vida pública, aquela experiência representava uma oportunidade rara de observar como diferentes correntes de pensamento construíam suas estratégias, avaliavam cenários e buscavam interpretar um país que atravessava um período de mudanças.
Entre essas transformações estava o próprio reposicionamento de um campo político identificado com a esquerda democrática. Depois das profundas mudanças ocorridas no cenário internacional durante a década de 1990, ganhava força uma compreensão de que justiça social, desenvolvimento econômico, democracia representativa e pluralismo não eram conceitos incompatíveis, mas elementos que precisavam caminhar conjuntamente. Mais do que uma mudança de discurso, tratava-se da tentativa de responder aos desafios de um novo tempo sem abandonar compromissos históricos com a democracia e com a participação política.
Foi nesse contexto que encontrei espaço para ampliar minha atuação partidária, a legenda à qual passei a integrar buscava formar novos quadros e permitia que jovens lideranças acompanhassem discussões e decisões que dificilmente estariam ao seu alcance em estruturas partidárias mais consolidadas. Mais do que ocupar uma função, aquela experiência proporcionou contato direto com dirigentes de diferentes regiões do Estado e com uma dinâmica política que, anos depois, revelaria sua importância para compreender os acontecimentos que se aproximavam.
Enquanto Santa Catarina iniciava esse processo de reorganização, o cenário nacional também se transformava, aproximava-se a eleição presidencial de 2002, considerada uma das mais importantes desde a redemocratização. O país chegava ao final dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) sob os efeitos da desvalorização cambial de 1999, da crise energética de 2001, do baixo crescimento econômico e de um ambiente que alimentava o desejo por novos rumos.
Nesse contexto, Ciro Gomes (PPS) apresentava-se como uma
alternativa capaz de dialogar com diferentes segmentos da sociedade. Sua
candidatura despertava especial atenção entre aqueles que buscavam romper a
polarização que gradativamente se consolidava entre PSDB e PT, ao mesmo tempo
em que procurava construir um projeto nacional sustentado por palanques
estaduais competitivos.
Foi nesse período que tive a oportunidade de participar da agenda de Ciro Gomes em Porto União, evento que reuniu lideranças políticas, empresários, professores, estudantes, militantes e cidadãos interessados em conhecer uma candidatura que procurava ocupar um espaço próprio no debate nacional. Somente anos depois seria possível perceber que aquele momento integrava um conjunto de acontecimentos muito maior, conectado às transformações que, simultaneamente, se desenhavam em Brasília e no estado de Santa Catarina.
No plano estadual, os partidos também iniciavam seus movimentos para a sucessão do governo catarinense. As definições que seriam tomadas nos meses seguintes alterariam significativamente o rumo da disputa e dariam início a um dos capítulos mais marcantes da história política recente do Estado.
SC │ Alisson Micoski
Advogado, articulador e analista político
Instagram • @alisson.micoski │ X • @Micoski │ Facebook • facebook.com/micoski

Nenhum comentário:
Postar um comentário