Das articulações nacionais à virada histórica de
2002 em Santa Catarina
As reflexões
que me aproximaram do PPS logo seriam colocadas à prova. A eleição de 2002 não
representou apenas meu primeiro grande processo eleitoral como dirigente
partidário; foi também a oportunidade de compreender, na prática, que a
política raramente se desenvolve em linhas retas. As alianças construídas
naquele momento revelavam um cenário muito mais complexo do que as tradicionais
divisões entre direita, centro e esquerda, demonstrando que, em determinadas
conjunturas, a capacidade de diálogo e articulação poderia ser tão importante
quanto as diferenças ideológicas.
A candidatura de Ciro Gomes sintetizava esse ambiente. Em Santa Catarina, os apoios à sua campanha presidencial produziam uma configuração pouco usual para os padrões políticos da época. Embora o PPS apresentasse Sérgio Grando, ex-prefeito de Florianópolis, como candidato ao Governo do Estado, Ciro recebia o respaldo de importantes lideranças do então PFL, presidido nacionalmente por Jorge Bornhausen, e do PPB, partido do governador Esperidião Amin, que disputava sua reeleição.
O cenário era, no mínimo, curioso. Nas eleições municipais de 2000, Ângela Amin (PPB) havia derrotado Sérgio Grando e o sucedido na Prefeitura de Florianópolis. Dois anos depois, entretanto, as divergências estaduais cediam espaço a um projeto presidencial comum. A política brasileira ainda preservava uma notável capacidade de construir entendimentos, em que objetivos eleitorais e circunstâncias do momento frequentemente aproximavam grupos que, em outros períodos, estavam em campos distintos.
Essa articulação tornou-se visível no grande comício realizado em 21 de julho de 2002, no Terminal Urbano de Lages, escolhido para marcar o início da campanha de Ciro Gomes na região sul do país, a definição da cidade estava longe de ser casual, naquele período, Lages era o maior município catarinense administrado pelo PFL, sob a liderança do prefeito Raimundo Colombo, transformando-se no palco ideal para demonstrar a amplitude daquela aliança e a capacidade de reunir forças políticas historicamente diferentes em torno de uma mesma candidatura presidencial. Sob uma fina chuva e o frio característico da Serra Catarinense, cerca de duas mil pessoas acompanharam o ato político daquela noite de julho, no mesmo palanque estavam Ciro Gomes, Leonel Brizola, Jorge Bornhausen, Sérgio Grando, Raimundo Colombo e diversas lideranças estaduais, a cena era emblemática: representantes da direita conservadora, do trabalhismo e do socialismo dividiam o mesmo espaço em defesa de um projeto nacional.
Concluído o primeiro turno, o PPS decidiu apoiar a candidatura de Lula. A decisão refletia a compreensão de que o país atravessava o encerramento de um ciclo político iniciado nos governos de Fernando Henrique Cardoso e a necessidade de construção de uma nova maioria nacional. Ao mesmo tempo, Lula buscava ampliar seu campo de alianças e reduzir resistências existentes junto ao empresariado, ao sistema financeiro e aos setores produtivos.
No segundo turno, foi eleito Presidente da República com 61,27% dos votos válidos, encerrando os oito anos de governo do PSDB. A frase pronunciada na noite da vitória, “A esperança venceu o medo”, sintetizou o espírito daquele momento histórico.
Enquanto o país voltava seus olhos para Brasília, Santa Catarina vivia uma disputa igualmente decisiva, Esperidião Amin chegava àquele pleito como governador amparado por uma administração bem avaliada e por uma trajetória política consolidada, iniciando a campanha cercado pelo sentimento de que a reeleição era o caminho mais provável.
No campo adversário surgia o ex-prefeito de Joinville, Luiz Henrique da Silveira (PMDB), conhecido por todos como LHS, em uma candidatura que nasceu de uma reviravolta em sua trajetória política, e que ao renunciar ao comando do maior município do Estado para disputar novos espaços na política catarinense, deixou a Prefeitura sob a responsabilidade de seu vice, Marcos Tebaldi (PSDB), movimento que também aproximou os tucanos de seu projeto político e ampliou o arco de alianças que seria construído naquele período. Antes de assumir o desafio da disputa estadual, Luiz Henrique estava envolvido nas articulações nacionais do PMDB para a composição da chapa presidencial de José Serra. Seu nome chegou a ser cogitado para ocupar a vaga de candidato a vice-presidente da República na aliança entre tucanos e peemedebistas, mas as negociações acabaram conduzindo à escolha da deputada federal Rita Camata (PMDB-ES) para compor a chapa presidencial.
Rita Camata, uma das principais lideranças femininas do PMDB naquele período, esposa do senador Gerson Camata e integrante de uma das forças políticas do partido no Espírito Santo, ganhou espaço nas articulações nacionais que definiram a composição da chapa presidencial. Diante dessa mudança de cenário, Luiz Henrique direcionou sua trajetória para Santa Catarina e aceitou disputar o Governo do Estado em uma eleição considerada por muitos como extremamente difícil.
Embora carregasse a força política de uma das maiores lideranças do PMDB catarinense, sua candidatura não era vista como favorita. Dentro do próprio partido havia dúvidas quanto à viabilidade daquele projeto, especialmente diante da força política acumulada por Esperidião Amin, da avaliação positiva de seu governo e da percepção predominante de que a continuidade administrativa seria naturalmente confirmada pelas urnas.
A disputa catarinense e a construção da virada
histórica
Um episódio contado por aqueles que acompanharam os bastidores daquela campanha ajuda a dimensionar o cenário inicial vivido por Luiz Henrique da Silveira e Eduardo Pinho Moreira, nos primeiros passos da caminhada eleitoral, quando poucos acreditavam nas chances reais de vitória, a estrutura disponível para a candidatura era bastante limitada. Conta-se que, em algumas regiões, o apoio dos diretórios municipais do PMDB era fundamental até mesmo para auxiliar em despesas básicas da campanha, como o abastecimento do veículo utilizado nas viagens pelo Estado.
A lembrança, aparentemente simples, revela o ambiente daquela candidatura: um projeto político que partia sem a estrutura dos favoritos e que dependia, sobretudo, da capacidade de seus líderes de percorrer Santa Catarina, dialogar com as comunidades e convencer o eleitorado de que era possível construir uma alternativa ao governo que buscava a continuidade.
E o confronto entre Esperidião Amin e Luiz Henrique da Silveira carregava uma forte simbologia histórica da política catarinense, mais do que uma disputa entre dois candidatos, representava a retomada de uma antiga divisão de forças que havia marcado o Estado durante décadas. De um lado, estavam os grupos ligados ao antigo PDS e posteriormente ao PPB, identificados popularmente como os “cola-branca”, expressão associada às tradicionais estruturas políticas conservadoras de Santa Catarina. De outro, o PMDB, representado pelo movimento do “manda-brasa”, que havia construído sua identidade a partir da resistência democrática e se consolidado como uma das maiores organizações partidárias do Estado. Ao longo dessa trajetória, esses grupos haviam se alternado no comando de Santa Catarina, formando diferentes alianças e ocupando espaços decisivos na política estadual. O PFL também integrava esse cenário, participando de composições e ciclos de poder que influenciaram os rumos do Estado nas décadas anteriores.
Essa divisão histórica não ficava restrita ao plano estadual, era reproduzida nos municípios, onde prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias e diretórios partidários funcionavam como bases de sustentação dessas estruturas. Cada eleição municipal representava, de certa forma, mais um capítulo da disputa pela influência regional e pela capacidade de articulação das grandes forças estaduais.
Também disputava o cargo de governador, José Fritsch, ex-prefeito de
Chapecó e uma das principais lideranças do Partido dos Trabalhadores em Santa
Catarina, que representava no Estado o projeto nacional de Luiz Inácio Lula da
Silva. Embora não tenha avançado ao segundo turno, sua candidatura teve papel
relevante naquela conjuntura, tanto pela presença crescente do PT no cenário
estadual quanto pela influência que seus votos poderiam exercer na
reorganização das alianças na etapa seguinte.
Encerrada a
primeira etapa da votação, Esperidião Amin terminou na liderança, com 1.217.059
votos, correspondentes a 39,86% dos votos válidos. Luiz Henrique da Silveira
alcançou 918.615 votos, ou 30,08%, garantindo sua passagem ao segundo turno,
enquanto José Fritsch obteve 834.385 votos, equivalentes a 27,33%, ficando fora
da fase decisiva por uma diferença relativamente pequena em relação ao segundo
colocado.
No primeiro turno, Luiz Henrique ainda mantinha a composição estadual alinhada ao acordo nacional entre PMDB e PSDB, os tucanos integravam a chapa majoritária e haviam indicado Leonel Pavan, ex-prefeito de Balneário Camboriú, para a disputa ao Senado, reproduzindo em Santa Catarina a aliança construída para a candidatura presidencial de José Serra.
A configuração, porém, começou a se modificar no segundo turno. Com a definição dos palanques nacionais, as forças ligadas a José Serra passaram a se concentrar em torno de Esperidião Amin, aproximando o candidato progressista dos setores tradicionais da política catarinense.
Para Luiz Henrique, a nova realidade exigia uma mudança de estratégia e uma aproximação com o eleitorado que havia se identificado com Lula e José Fritsch na primeira etapa da eleição. Foi nesse contexto que, em um ato político realizado em Florianópolis, com a presença de Luiz Inácio Lula da Silva e José Fritsch, Luiz Henrique declarou apoio à candidatura petista para a Presidência da República. O gesto possuía grande significado político: mais do que uma manifestação eleitoral, representava uma nova composição de forças, aproximando o PMDB catarinense da onda de mudança que percorria o país e ampliando o campo de apoio à sua candidatura estadual.
A vitória no segundo turno entrou para a história. Luiz Henrique da Silveira alcançou 50,34% dos votos válidos, contra 49,66% obtidos por Esperidião Amin. Uma diferença inferior a vinte mil votos foi suficiente para produzir uma das maiores viradas eleitorais da política catarinense.
Aquela eleição revelou uma característica singular, com a consolidação da candidatura de Luiz Henrique rumando para o segundo turno, setores do PMDB passaram a estimular o chamado segundo voto em Ideli Salvatti, contribuindo para a convergência política que se estabelecia naquele momento. Ao mesmo tempo, a eleição de Leonel Pavan demonstrava que o eleitor catarinense buscava renovar sua representação sem concentrar todas as escolhas em um único campo político. Assim, a mudança alcançou igualmente a disputa pelo Senado, pois ambos foram eleitos, Ideli e Pavan, superando dois nomes que durante boa parte da campanha figuravam entre os favoritos: Paulinho Bornhausen (PFL), filho do senador Jorge Bornhausen, e Casildo Maldaner (PMDB), que buscava a renovação do mandato.
Somadas, aquelas vitórias simbolizaram o encerramento de um ciclo e a abertura de uma nova fase na política catarinense e brasileira.
Anos depois, aquela virada seria resgatada pelo documentário O Dia da Virada, dirigido por Anderson Dresch e Fábio Cabral, que reconstrói os bastidores da campanha de Luiz Henrique da Silveira e demonstra como uma candidatura inicialmente tratada como improvável conseguiu alterar profundamente o rumo da política catarinense.
A histórica eleição de 2002 representaria o início de uma complexa engenharia de composições políticas que passaria a orientar o centro das decisões em Santa Catarina ao longo da década seguinte. Mais do que garantir a vitória de Luiz Henrique da Silveira, aquele resultado inaugurou uma nova dinâmica de articulação política, capaz de reunir diferentes legendas em torno de um projeto de governo e de estabelecer uma ampla base de sustentação que influenciaria os rumos do Estado por muitos anos. Para o PPS, significava a abertura de um novo espaço de participação nesse processo de construção política. Para mim, representava o início de uma etapa de maior inserção nos debates públicos, ampliando minha atuação na Juventude Popular Socialista e proporcionando o contato com lideranças, articulações e experiências que, nos anos seguintes, seriam determinantes para minha formação política e institucional.
SC │ Alisson Micoski
Advogado, articulador e analista político
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