quarta-feira, 15 de julho de 2026

A quadra da história política que vivi: entre mudanças, rupturas e novos caminhos III

Convicções, escolhas e lideranças: a construção de uma visão política

   Toda formação política encontra, em algum momento, sua maior prova: a realidade. As ideias ajudam a compreender princípios, mas é na convivência com pessoas, partidos, lideranças e acontecimentos que elas são continuamente testadas, confirmadas, revistas e amadurecidas. Foi esse contato direto com a realidade que passou a moldar minha compreensão sobre a política como espaço de escolhas, responsabilidade e construção coletiva.

   Vista de perto, a política revela uma dimensão muito diferente daquela percebida apenas pelos debates públicos ou pelos períodos eleitorais. Ela é construída diariamente por relações de confiança, decisões estratégicas, divergências, circunstâncias e pela capacidade de interpretar uma realidade em permanente transformação. É nesse ambiente que princípios deixam de ser apenas referências teóricas para orientar escolhas concretas, muitas vezes tomadas diante de cenários complexos e imperfeitos.

   Com o amadurecimento dessa trajetória, tornou-se evidente que nenhuma atuação política ocorre de forma isolada. Cada liderança é moldada por sua história, seus valores, suas experiências e pela visão de mundo que orienta suas escolhas. Da mesma forma, os partidos vão muito além de uma estrutura formal: preservam uma identidade construída ao longo do tempo, expressam uma cultura política própria, adotam modelos específicos de organização e refletem diferentes formas de compreender a sociedade e os desafios coletivos.

   A convivência com diferentes lideranças e distintos momentos da vida pública demonstrou que A trajetória política resulta tanto de convicções quanto de escolhas. As convicções orientam caminhos e revelam valores; as escolhas mostram como esses valores são colocados à prova diante das circunstâncias concretas, dos limites institucionais e das possibilidades de cada tempo histórico.

  É justamente nesse espaço entre princípios e realidade que surgem algumas das lições mais importantes da vida pública. O exercício político exige capacidade de diálogo, compreensão dos diferentes interesses envolvidos e disposição para construir soluções possíveis, mesmo quando as condições ideais não estão presentes.

   A vivência acumulada demonstrou que as lideranças políticas são, em grande medida, fruto de seus contextos históricos. Algumas surgem em períodos de transformação social; outras conquistam relevância pela capacidade de interpretar demandas que ainda não encontraram representação adequada. Há aquelas que se afirmam pela força das ideias; outras pela competência administrativa, pela habilidade de articulação ou pela proximidade com determinadas comunidades.

   Existem também lideranças cuja trajetória é construída no interior de organizações políticas, nas quais o coletivo identifica vocações, forma quadros e, no momento oportuno, confia a determinados integrantes a missão de representar um projeto, conduzir uma agenda pública ou assegurar a continuidade de uma estratégia construída coletivamente. Em muitos casos, essas lideranças sequer iniciam sua caminhada com a pretensão de ocupar posições de protagonismo. São reconhecidas pelo trabalho, pela disciplina, pela capacidade de execução, pela lealdade ao projeto comum e pela confiança conquistada ao longo do tempo, até que as circunstâncias e a própria organização lhes atribuam responsabilidades cada vez maiores.

   Em qualquer dessas circunstâncias, Nenhuma liderança permanece relevante apenas pela posição que ocupa. Ela resulta da interação entre vocação pessoal, preparo, circunstâncias históricas, confiança e legitimidade construída perante a sociedade.

   Nenhuma liderança permanece relevante apenas pela posição que ocupa. A permanência na vida pública depende da capacidade de renovar vínculos, compreender as mudanças da sociedade e responder aos novos desafios que surgem ao longo do tempo.

   A análise dos diferentes ciclos políticos permitiu perceber, tornou-se possível perceber que os partidos também possuem trajetórias próprias. Nascem em determinados contextos, crescem quando conseguem interpretar demandas sociais e perdem espaço quando deixam de compreender as transformações da sociedade. Muito além dos resultados eleitorais, a vida partidária envolve formação de quadros, construção de confiança, presença regional, capacidade de organização e o surgimento de lideranças aptas a representar seus valores perante a população.

   Essa percepção é especialmente relevante em um Estado como Santa Catarina, cuja cultura política sempre valorizou a proximidade entre representantes e comunidades, a força das lideranças locais e a importância dos municípios na construção da representação política. Essa identidade ajudou a formar uma tradição de forte participação comunitária e de permanente diálogo entre a política e a realidade cotidiana das pessoas.

   Ao mesmo tempo, essa característica evidencia um dos grandes desafios da política contemporânea: equilibrar a proximidade com a população, indispensável à boa liderança, com a capacidade de formular projetos de médio e longo prazo. O contato permanente com os problemas cotidianos é essencial, mas precisa caminhar ao lado do planejamento, do estudo e da preparação.

   Grandes transformações raramente acontecem por improviso. Elas resultam de organização, formação de equipes, capacidade de interpretar o momento histórico e clareza quanto aos objetivos que se pretende alcançar. A história demonstra que as lideranças mais marcantes foram aquelas capazes de combinar sensibilidade diante da realidade com visão de futuro. Não basta perceber os problemas; é preciso compreender suas causas, formular alternativas e reunir as condições necessárias para transformar ideias em resultados.

   Talvez um dos maiores desafios da política seja justamente superar a lógica da urgência permanente. A capacidade de responder aos problemas imediatos é indispensável, mas ela precisa estar acompanhada da construção de projetos capazes de orientar o futuro. A administração do presente não pode impedir a preparação do amanhã.

   O acompanhamento de diferentes estilos de liderança reforçou essa compreensão ao longo da vida pública. Algumas exercem suas funções com elevado senso de responsabilidade, dedicação e profundo compromisso com o interesse coletivo. Muitas vezes, destacam-se pela competência técnica, pela capacidade de gestão e pela eficiência na execução das políticas públicas. Outras possuem maior vocação para a articulação, para a construção de consensos e para a formação de maiorias políticas. Em qualquer hipótese, nenhuma dessas qualidades, isoladamente, é suficiente.

   Administrar bem é condição necessária, mas não esgota o exercício da política. O gestor precisa entregar resultados, organizar estruturas e assegurar o funcionamento adequado dos serviços públicos. O líder político, por sua vez, precisa ir além: interpretar cenários, compreender os movimentos da sociedade, formar equipes, construir alianças, comunicar propósitos e projetar caminhos que ultrapassem os limites do presente.

   Essa distinção ajuda a compreender por que excelentes administradores, por vezes, encontram dificuldades na arena política, assim como líderes de grande capacidade de mobilização nem sempre conseguem produzir governos eficientes. Gestão e política dialogam permanentemente, mas pertencem a dimensões distintas de uma mesma realidade. A primeira concentra-se na execução; a segunda exige, além dela, visão estratégica, capacidade de convencimento, construção de legitimidade e a habilidade de reunir pessoas em torno de um propósito comum.

   A convivência com diferentes perfis de liderança fortaleceu uma convicção amadurecida ao longo dos anos: A atividade política não deve ser vista como obstáculo à boa gestão, mas como o espaço democrático em que a sociedade define prioridades, estabelece consensos possíveis e escolhe os caminhos pelos quais pretende conduzir seu próprio desenvolvimento.

   Foi também ao longo dessa trajetória que se tornou evidente o quanto Santa Catarina possui uma identidade política singular. O Estado consolidou uma cultura fortemente marcada pela valorização do trabalho, do empreendedorismo, da organização comunitária e pelo protagonismo das lideranças locais. A proximidade entre representantes e cidadãos, característica histórica da vida pública catarinense, permitiu que muitas lideranças construíssem sua credibilidade pela convivência direta com suas comunidades e pela capacidade de oferecer respostas concretas às demandas do cotidiano.

   Essa tradição permanece como uma das maiores virtudes da política catarinense. Os desafios das últimas duas décadas, contudo, passaram a exigir que essa proximidade viesse acompanhada de planejamento, formação permanente e visão estratégica. Infraestrutura, desenvolvimento regional, inovação, sustentabilidade, educação, equilíbrio fiscal e competitividade econômica deixaram de admitir soluções improvisadas. São temas que exigem continuidade administrativa, capacidade de coordenação e projetos capazes de ultrapassar os limites de um mandato.

   

   Nesse aspecto, a trajetória de Juscelino Kubitschek permanece como uma referência inspiradora, reconhecido como um dos mais hábeis estrategistas políticos da história brasileira, ele combinava rara capacidade de articulação, construção de consensos e visão de longo prazo. Sua liderança não se limitava à administração do governo; era marcada pela habilidade de reunir diferentes forças em torno de um projeto nacional de desenvolvimento. Ao afirmar que "a solução de nossos problemas está no planejamento", deixou uma lição que transcende a administração dos governos. O planejamento também orienta a formação das lideranças, a construção de projetos coletivos e a consolidação de trajetórias públicas comprometidas com objetivos que ultrapassam interesses imediatos.             

   Quem escolhe a vida política precisa compreender que a liderança não se improvisa. Ela se constrói com estudo, experiência, capacidade de ouvir, disposição para formar novos líderes, capacidade de reunir pessoas em torno de propósitos comuns e clareza sobre o futuro que se pretende ajudar a construir. Talvez por isso a mensagem de Juscelino permaneça tão atual: planejar não é apenas organizar ações; é cultivar uma visão de longo prazo para as instituições, para a sociedade e para a própria missão de servir ao interesse público. 

   Essa lição continua atual não apenas para quem governa, mas também para aqueles que escolhem a política como missão pública, assumem responsabilidades de liderança ou desejam construir, de forma ética, responsável e consistente, uma trajetória capaz de contribuir para a construção de uma sociedade mais desenvolvida, justa e democrática.

   Ao mesmo tempo em que esses desafios se ampliavam, a própria atividade política passava por uma transformação silenciosa, porém profunda. Quem acompanhou as últimas duas décadas percebe que a dinâmica das disputas eleitorais, da comunicação e da formação das lideranças mudou de maneira significativa. No início desse período, a política ainda se desenvolvia, predominantemente, em um ambiente presencial. As articulações aconteciam nas reuniões partidárias, nos encontros regionais, nas visitas às comunidades e no diálogo construído face a face.

   Naquele contexto, os partidos exerciam influência ainda mais decisiva sobre a organização da vida pública. Seus dirigentes possuíam maior capacidade de identificar lideranças, formar novos quadros, construir consensos internos e impulsionar candidaturas alinhadas aos projetos e aos valores partidários. A vida partidária constituía o principal espaço de formação política, onde experiências eram compartilhadas, lideranças amadureciam e projetos coletivos encontravam direção.

   Durante esse período, entretanto, essa dinâmica começou a ser redesenhada. A expansão da internet, das redes sociais e das novas tecnologias de comunicação modificou não apenas a maneira de realizar campanhas eleitorais, mas também a forma como a sociedade acompanha os acontecimentos públicos, participa do debate e estabelece vínculos com seus representantes. A informação passou a circular em tempo real, o eleitor tornou-se mais conectado e novos espaços de influência passaram a coexistir com aqueles tradicionalmente ocupados pelos partidos.

   Isso não significa que as instituições partidárias tenham perdido sua relevância. Permanecem essenciais ao funcionamento da democracia representativa e continuam sendo o principal ambiente de organização da atividade política. O que se transformou foi a forma de exercer essa missão. A engenharia política das últimas duas décadas tornou-se mais dinâmica, mais aberta e muito menos previsível do que no início desse período. A construção das lideranças passou a conviver com novos fatores de influência, novas formas de comunicação e novos espaços de participação, exigindo capacidade permanente de adaptação sem abrir mão dos valores que sustentam a boa política.

   Entender essa mudança é fundamental para interpretar a evolução da política catarinense nas últimas duas décadas. Muitas das reorganizações partidárias, do surgimento de novas lideranças e da própria dinâmica eleitoral somente ganham sentido quando observadas à luz desse novo contexto.

   Ao revisitar essa caminhada, torna-se evidente que a política não pode ser compreendida apenas pelos seus momentos de disputa. Ela é construída diariamente por escolhas, estratégias, instituições e pessoas que, em diferentes circunstâncias, assumem a responsabilidade de conduzir processos coletivos e responder às transformações da sociedade.

   O exercício da liderança exige equilíbrio entre tradição e renovação. É necessário conhecer a história, respeitar as experiências acumuladas e, ao mesmo tempo, desenvolver sensibilidade para perceber mudanças que ainda estão em formação. A vocação aproxima o líder das pessoas; o preparo oferece os instrumentos para compreender a complexidade dos problemas; e a estratégia transforma propósitos em caminhos possíveis. Quando esses elementos caminham juntos, a política deixa de ser apenas reação aos acontecimentos e passa a exercer sua verdadeira função: construir o futuro.

   Essa nova perspectiva alterou também a forma como passei a observar a vida partidária catarinense. Os acontecimentos deixaram de ser episódios isolados e passaram a revelar conexões mais amplas, nas quais decisões aparentemente circunstanciais produziam consequências que somente se tornariam visíveis algum tempo depois. Mudanças de lideranças, reorganizações partidárias, alianças, rupturas e reposicionamentos raramente nasceram do acaso; foram respostas a contextos específicos e às transformações experimentadas pela própria sociedade.

   Foi nesse contexto que Santa Catarina passou a assistir a um lento processo de reorganização de seu centro político. Lideranças mudaram de posição, partidos precisaram redefinir estratégias, novas forças surgiram e antigas estruturas passaram a enfrentar desafios que até então pareciam distantes. A compreensão desse movimento não começa nas eleições de 2026; começa muito antes delas. É essa história, construída entre aproximações, rupturas, reorganizações e novas lideranças, que passa a ser contada a partir do próximo capítulo.


SC │ Alisson Micoski

Advogado, articulador e analista político

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