segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Sassá Mutema mineiro

    A política brasileira sempre encontrou na ficção uma espécie de espelho de suas próprias contradições, especialmente nas novelas que transformaram tipos políticos em personagens reconhecidos pelo público. Odorico Paraguaçu, de O Bem-Amado, tornou-se associado à retórica grandiosa, às promessas e às manobras de sobrevivência eleitoral; em Roque Santeiro, Florindo Abelha era formalmente o prefeito de Asa Branca, embora Sinhozinho Malta, poderoso empresário e espécie de oligarca regional que rejeitava o tratamento de coronel, exercesse influência muito superior àquela conferida pelo cargo, inclusive ocupando a cadeira do prefeito durante as reuniões no gabinete. Entre esses personagens, Sassá Mutema, de O Salvador da Pátria, apresenta uma trajetória particularmente interessante porque sua história acompanha a transformação de um homem simples que chega à política, passa a conviver com os ambientes do poder e precisa aprender a exercer uma função para a qual não havia sido preparado por sua trajetória anterior.

    Vindo do comércio e do sacolão da família, em Divinópolis, Cleitinho Azevedo ingressou na política municipal, chegou à Assembleia Legislativa e ao Senado e construiu uma identidade associada à distância das famílias e dos grupos que tradicionalmente ocupam o poder em Minas Gerais. Essa origem ajudou a aproximá-lo de um eleitor que se reconhece em uma trajetória fora da política profissional e vê em sua biografia uma experiência social mais próxima da própria realidade.

    

A conexão com Sassá Mutema está nessa passagem de uma vida distante dos círculos tradicionais para o interior das relações de poder, embora a comparação não deva transformar o personagem da novela em caricatura do senador mineiro. A disputa pelo Governo de Minas acrescenta uma dimensão completamente diferente à trajetória, porque coloca diante dele uma estrutura administrativa formada por 853 municípios, servidores, contratos, despesas obrigatórias, compromissos financeiros e demandas acumuladas em áreas como saúde, educação, segurança e infraestrutura. A experiência do comércio pode proporcionar uma percepção concreta sobre dificuldades econômicas e sobre o cotidiano das pessoas, enquanto o governo exigirá domínio de orçamento, planejamento, gestão, composição de equipes, articulação política e capacidade de execução, dentro de limites financeiros que não estarão sujeitos à vontade do governante. A biografia oficial de Cleitinho confirma essa origem comercial e sua sequência de mandatos até o Senado.

    No Parlamento, Cleitinho construiu parte de sua identidade pela fiscalização, pela cobrança e pela disposição de confrontar posições estabelecidas, característica que aparece também na defesa do fim da escala 6x1 e nas críticas aos privilégios da própria classe política. Essa postura lhe permite contrariar, em determinadas circunstâncias, setores do próprio campo político, mas o Executivo acrescentará outra camada de responsabilidade, porque posições defendidas no plenário precisarão encontrar correspondência em políticas públicas, orçamento, prioridades, equipe e capacidade de execução. A diferença está na consequência administrativa de cada escolha, já que um governador não terá diante de si apenas uma pauta a defender, mas uma estrutura inteira a organizar e uma população que experimentará diretamente os resultados de suas decisões.

    Minas Gerais acrescenta dificuldades próprias a essa transição. Os 853 municípios possuem realidades econômicas e sociais distintas, enquanto o Estado carrega compromissos que atravessam diferentes administrações, restrições financeiras e uma estrutura pública que continuará funcionando independentemente de quem vencer a eleição. O próximo governador terá de conciliar demandas regionais, limitações orçamentárias, compromissos assumidos anteriormente e a manutenção de serviços essenciais, ao mesmo tempo em que procura abrir espaço financeiro e administrativo para cumprir aquilo que tiver apresentado durante a campanha.

    Também há uma dimensão da política de Cleitinho que merece ser observada porque ajuda a compreender sua relação com a exposição pública. Durante a CPI das Bets, quando Virginia Fonseca prestava depoimento, o senador interrompeu sua participação para pedir que ela gravasse uma mensagem para sua esposa e sua filha. Posteriormente, reconheceu que havia agido por impulso e pediu desculpas, explicando que recebera da família o pedido para que a influenciadora gravasse o vídeo. O episódio repercutiu justamente porque ocorreu dentro de uma comissão parlamentar que discutia o universo das apostas digitais e expôs, no mesmo ambiente, a política institucional, a cultura das redes sociais e a influência das celebridades.

    O episódio também permite observar uma característica humana que não deveria ser convertida em diagnóstico ou instrumento de julgamento eleitoral. Cleitinho reconheceu publicamente a impulsividade daquele momento, e a própria explicação esteve ligada à relação com a filha e à sensação de ausência provocada pelos compromissos políticos. Caso venha a exercer o governo estadual, estará submetido a uma pressão muito maior do que aquela experimentada no Legislativo, circunstância que torna importante contar com pessoas capazes de oferecer aconselhamento, ponderação e, sobretudo, disposição para discordar quando uma decisão puder ser influenciada pela pressão do momento.

     Na ficção, Sassá Mutema também precisou lidar com a mudança provocada pela chegada ao poder. A aproximação com a elite local trouxe o deslumbramento próprio de quem passa a ocupar uma posição social diferente, mas a convivência com aqueles que haviam participado de sua ascensão acabou exigindo dele autonomia para decidir, enquanto os vínculos com sua comunidade permaneciam como parte de sua identidade. A personagem amadurece politicamente no exercício da prefeitura, aprende a enfrentar interesses que já não podia simplesmente atribuir aos seus apoiadores e participa da reação contra a organização criminosa que atravessa a trama, chegando a tomar a iniciativa de acionar a polícia.

    O percurso de Cleitinho produziu uma transformação semelhante em escala diferente. O comerciante de Divinópolis tornou-se vereador, deputado estadual e senador, passando a conviver com partidos, alianças e grupos políticos que estavam muito distantes de sua realidade quando iniciou a vida pública. A origem popular continua sendo um componente importante de sua identidade eleitoral, mas os mandatos acumulados também o aproximaram das engrenagens da política que sua trajetória inicial ajudou a contestar. A disputa pelo Governo de Minas leva essa contradição a um ponto mais exigente, porque o eleitor que desconfia da política tradicional poderá escolher justamente alguém que terá de administrar suas estruturas, negociar com seus agentes e responder por seu funcionamento.

    Quem chegar ao Palácio Tiradentes encontrará técnicos, servidores, prefeitos, deputados, empresários, órgãos de controle e grupos de interesse que fazem parte da rotina de qualquer governo estadual. Para Cleitinho, isso significará preservar a capacidade de comunicação que o aproximou de seu eleitorado e, simultaneamente, aceitar informações que possam contrariar suas expectativas, delegar responsabilidades a pessoas preparadas e considerar os efeitos de cada decisão sobre as contas públicas e os serviços oferecidos à população. A administração estadual não poderá ser conduzida exclusivamente pela lógica que funcionou para construir sua carreira política, porque a escala e a natureza dos problemas serão outras.

    O eleitor mineiro terá diante de si, portanto, uma escolha que não se esgota na biografia do candidato. A origem no comércio, a linguagem direta, as críticas aos privilégios e as posições assumidas em determinadas pautas ajudam a compreender sua força eleitoral, mas será necessário observar também a equipe que pretende levar ao governo, a maneira como pretende enfrentar as contas públicas, as prioridades que estabelecerá e a capacidade de executar aquilo que propõe. A eleição modificará o ocupante do Palácio Tiradentes, mas não eliminará os contratos existentes, as despesas obrigatórias, os compromissos financeiros nem os problemas acumulados pelo Estado.

    É nesse ponto que Sassá Mutema deixa de ser apenas uma lembrança da televisão e passa a funcionar como referência para a discussão. Sua história mostra um homem que chegou ao poder vindo de uma realidade distante das elites, conheceu o deslumbramento provocado pela nova posição, aproximou-se daqueles ambientes e precisou descobrir, durante o próprio governo, que a eleição não encerrava sua formação política. O cargo lhe conferia autoridade, mas também o obrigava a responder pelos problemas que continuavam diante dele, independentemente de quem tivesse ajudado a colocá-lo naquela posição.

    Cleitinho ainda terá de demonstrar como fará essa passagem da política de identificação para a política de administração. Sua trajetória explica a origem de sua força eleitoral e sua atuação parlamentar ajuda a compreender a relação que construiu com uma parcela significativa dos mineiros, mas governar exigirá uma preparação que não pode ser medida pela origem do candidato ou pela capacidade de comunicação. A máquina pública continuará submetida a regras, contratos, orçamento, órgãos de controle e demandas sociais, e será dentro dessa realidade que suas escolhas precisarão produzir resultados.

    A comparação com Sassá Mutema ganha significado justamente porque ambos chegaram ao poder carregando uma história que os aproximava de pessoas distantes das elites políticas tradicionais, mas encontraram, depois da eleição, uma realidade muito mais complexa do que aquela que havia permitido sua ascensão. Sassá precisou aprender a governar enquanto exercia o cargo; se Cleitinho chegar ao Governo de Minas, terá diante de si uma estrutura incomparavelmente maior, na qual a capacidade de representar a insatisfação do eleitor será apenas uma parte da responsabilidade que receberá nas urnas.


SC │ Alisson Micoski • Advogado • Especialista em Direito do Consumidor e Eleitoral • Articulista • Articulador e analista político

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